
"Dessa vez nós vamos os dois carregados. E os dois controles, óbvio, vão comigo."
Na véspera, ele a flagrou diante do espelho do quarto provando o vestido midi — comportado, cor de vinho, a etiqueta da loja ainda pendurada na axila balançando a cada giro — com o Lush novo repousando na palma da mão aberta, cor-de-rosa, curvo, menor que um segredo bem guardado.
— Tá fazendo o quê, exatamente?
— Prova de conjunto. — Ela girou mais uma vez, avaliando o caimento no espelho com olho de perita de leilão. — O vestido, todo mundo vai ver. Ele aqui... — fechou a mão devagar sobre o brinquedo — ...só eu vou saber. E o conjunto dos dois precisa combinar, porque elegância, meu amor, é o que se veste por cima do que ninguém desconfia.
Ela arrancou a etiqueta com um puxão seco e pendurou o vestido na porta do guarda-roupa, pronto para o combate. A nota fiscal antiga — quantidade: dois — completava três semanas de validade no dia seguinte, às dez da manhã, numa capela com bebê e tudo.
O regulamento chegou no sábado às sete, em áudio de cerimônia:
"Regras de hoje. Você vai com o seu, eu vou com o meu — que aliás é MUITO mais discreto, vantagem do meu time. Os dois no mesmo app, no meu celular, um polegar só: o meu. Regra de ouro igual à do casamento: ninguém desconfia, ninguém goza, todo mundo sorri pras fotos. A diferença é que hoje somos dois no fio da navalha... e eu vou dirigir com as duas mãos. Isso devia me dar juízo. Me dá é ideia. Te pego às nove."
A capela era pequena e cheirava a lírio e cera. O bebê dos amigos berrou a cerimônia inteira com uma potência admirável, digna de anais, o padre lutou contra um microfone que chiava a cada "amém", e no terceiro banco, compostíssimos, estavam eles: ele de blazer, com o Edge em posição e o corpo em memória de guerra de sete horas de casamento; ela de vestido vinho e pernas cruzadas, a bolsinha dourada no colo — o coldre de sempre, agora com munição dupla.
O primeiro pulso veio na hora da vela acesa. Suave, curto, nele. Ele nem piscou: veterano condecorado, calejado numa festa inteira de terno. O que ele não previu foi o contragolpe imediato: três segundos depois, de rabo de olho, viu a mão dela apertar o missal e o lábio de baixo sumir para dentro da boca por meio segundo exato. Ela tinha apertado o próprio botão.
— Você tá se... — sussurrou ele, incrédulo, sob o canto do coral.
— Democracia. — Os olhos dela seguiam fixos no altar, devotíssimos, dois vitrais de inocência. — Sofremos juntos. Eu no volume que eu escolho... e você no volume que eu escolho também. O sistema é justo porque a juíza sou eu.
No almoço — mesa comprida, criança correndo entre as cadeiras, uma tia fotógrafa que não perdoava ninguém e nenhum ângulo — a guerra fria esquentou por camadas, do jeito que ela gostava de cozinhar as coisas: em fogo baixo, com tampa. Primeiro os pulsos alternados: um nele durante o risoto, um nela durante a salada, cada um tendo que segurar a cara na frente de testemunhas enquanto o outro assistia, vingativo e solidário ao mesmo tempo, cúmplice e carrasco. Depois a descoberta que mudou a tarde: o modo sincronizado. Um toque nos dois ao mesmo tempo, no mesmo segundo, os dois em pontas opostas da mesa conversando com pessoas diferentes — e o mesmo vento particular atravessando os dois corpos de uma vez, os dois pescoços endireitando juntos, os dois sorrisos ficando estreitos na mesma foto.
— Vocês dois tão tão apaixonados hoje — diagnosticou a tia fotógrafa, mirando a lente. — Dá pra ver de longe. Tá irradiando.
— A senhora não imagina — respondeu ela, com a taça erguida e o polegar dentro da bolsinha.
Mas todo sistema com a juíza dentro do jogo tem um vício de origem: a juíza também sente. E no discurso da madrinha — longo, chorado, com pausas dramáticas que não acabavam nunca — ela se excedeu. Deixou o dela ligado um degrau acima do prudente, apostando na própria pose, e ele viu o erro acontecer em tempo real: ela de pé, taça na mão, sorrindo para o discurso, e o joelho esquerdo falhando meio centímetro. Duas vezes. A mão dela procurou o espaldar da cadeira com uma elegância que só ele no salão inteiro sabia traduzir: socorro.
Ele atravessou o salão sem pressa, ofereceu o braço como um cavalheiro de outro século, e cobrou dois eventos sociais de uma vez só, sussurrando com a dicção mais solícita do hemisfério:
— Cê tá bem? Tá pálida. Quer água?
— Cala a boca — sorriu ela, agarrada ao braço dele, fuzilando-o com amor puro. — Isso é motim.
— Isso é jurisprudência. Casamento, ano passado: um sujeito quase desmaiou numa cadeira e uma senhora muito preocupada ofereceu água pra ele. Tô só citando o precedente.
Ela riu — a risada escandalosa escapando inteira no meio do salão devoto, virando duas ou três cabeças — e ele sentiu, no braço, o exato momento em que ela parou de lutar contra a tarde e tomou a decisão executiva. Ela ficou na ponta dos pés, a boca na orelha dele, e falou baixinho, com a voz que já não era de juíza — era de ré confessa:
— Corredor do fundo, atrás da cozinha. Banheiro de serviço. Ninguém usa. — Os olhos dela estavam pretos até a borda. — Eu vou primeiro. Você conta até sessenta e pede outra taça no caminho, pra parecer ocupado. — Ela já ia; voltou meio passo: — E vem com o seu ligado. É uma ordem litúrgica.
Ele contou até sessenta duas vezes — na primeira, esqueceu números no caminho, tradição da casa. Pediu a taça. Atravessou o salão inteiro com o segredo vibrando por baixo do blazer, passou pela cozinha onde duas copeiras discutiam a temperatura do bolo sem olhar para ele, e empurrou a última porta do corredor.
Ela trancou a porta atrás dele e o prensou na pia no mesmo movimento, a boca na boca dele com quatro horas de fome acumulada. O banheiro de serviço era pequeno, azulejo branco até o teto, um espelho retangular sem moldura e uma janelinha basculante por onde entrava, fininho, o barulho da festa — talheres, risada, o bebê protestando de novo. A civilização a dez metros. Eles, do lado de fora dela, por cinco minutos roubados do relógio.
— Sem cerimônia — ditou ela contra a boca dele, os dedos já no cinto. — Sem ordem hoje, sem jogo: empate técnico. Nós dois carregados, nós dois no limite. — Ela arrancou o Lush de dentro de si com um gemido de urgência e enfiou-o no bolso do blazer dele, quente e molhado como um segredo recém-saído do forno. Depois, sem quebrar o olhar, tirou a calcinha e enfiou no outro bolso: — Conjunto completo. Você volta pra festa carregando os dois... e eu volto sem nada.
— Você planejou essa frase a semana inteira.
— Planejei. Ficou boa? — Ela virou-se de frente para o espelho, plantou as mãos na pia e empinou contra ele, o vestido comportado subindo pelas coxas como cortina de estreia. — Agora levanta o resto e me fode com o seu ainda ligado. Eu quero sentir você vibrando dentro de mim. E olha pra gente. — Os olhos dela acharam os dele no espelho e prenderam. — Olha pra gente. Eu quero assistir.
Ele entrou nela de uma vez — os dois gemendo baixo, mordido, engolido a meio caminho da garganta — e os dois se assistiram o crime inteiro no espelho sem moldura: ela de vestido vinho amarrotado na cintura, ele de blazer, vestidos e obscenos, o Edge vibrando nele e atravessando para ela a cada estocada, transformando cada movimento em dois. Foi rápido porque tinha que ser e foi fundo porque quatro horas não cabem em movimento raso — cento e oitenta segundos de selvageria cronometrada, o quadril dele batendo, a mão dela espalmada no espelho embaçando um círculo, o dirty talk inteiro em volume de confessionário: tá me sentindo? os dois? — os dois — então me enche, agora, AGORA —
Gozaram juntos, abafados um na boca do outro, o terremoto em silêncio de batizado — a versão sacra e apertada do que os vizinhos de outros volumes conheciam em som aberto e alta fidelidade. No salão, alguém começou o parabéns. O bebê berrou por cima, imbatível, encobrindo a única testemunha possível.
Antes de destrancar a porta, ele ofereceu papel. Ela recusou com um gesto de rainha:
— Não. Deixa. — Alisou o vestido por cima do nada, os olhos ainda pretos, a compostura voltando camada por camada, deixando de fora só o essencial. — Eu vou cortar bolo, cantar parabéns e sorrir pra tia fotógrafa sentindo você escorrer pela minha coxa. Sem calcinha pra segurar. É o meu souvenir da liturgia. — E na porta, o golpe de misericórdia, sussurrado com a mão na maçaneta: — Toda vez que eu apertar a sua mão na mesa... é porque desceu mais um pouco.
Voltaram separados, com dois minutos de intervalo, compostos como mobília de igreja. Cortaram o bolo. Ela apertou a mão dele três vezes durante o parabéns — devota, sorridente, cada aperto um boletim obsceno que só ele no hemisfério sabia decifrar. Saíram nas fotos: existe uma, emoldurável, dos dois atrás dos padrinhos, tirada quatro minutos depois do banheiro de serviço, e é a foto mais bonita que já tiraram juntos, todo mundo diz. Ninguém sabe por que ela sorri daquele jeito. Ele sabe.
No carro, ela descalçou os saltos, pescou o Lush do bolso do blazer dele — deixou a calcinha, "essa ficou de lembrança" — e recostou no banco com o suspiro de quem bateu a própria meta com folga.
— Balanço: batizado do bebê, lindo. Batizado dos brinquedos... consagrado. — Ela olhou pela janela um tempo, a cidade passando, e ele já conhecia esse silêncio: era o silêncio de carrinho de compras enchendo. — Mas hoje me ensinou uma coisa. Eu, no fio da navalha junto com você, sou um perigo público. Eu preciso de uma posição mais... — procurou a palavra com um gesto largo — ...gerencial. Comando puro. Zero exposição.
— Existe cargo assim?
— Existe equipamento assim. — O sorriso dela cresceu no reflexo do vidro, dourado de poste em poste. — Já tá no carrinho. Não é vestível, não é discreto, não vai a festa nenhuma. É... mobília. — Ela virou para ele, e a última frase veio com a chave da casa inteira: — Semana que vem você conhece a sua nova colega de trabalho.

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