Ardilune
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Capa — A Recíproca
Ardilune · Contos · Nº 21

A Recíproca

— Dessa vez, quando eu te fodo... eu sinto tudo.

"Eu te fodi inteirinho e não senti nada. Injustiça tributária."

A caixa veio no meio das compras da semana — entre o pacote de café e três abacates que rolaram pela mesa quando ela virou a sacola —, e ele soube o que era antes de ler qualquer coisa, só pelo jeito que ela a separou do resto: com as duas mãos, e um respeito que ninguém dedica a mantimento.

— Chegou a revanche — anunciou ela, pousando a caixa entre os abacates como um troféu em meio à plebe. — Lembra do carrinho? — Claro que ele lembrava: dessa vez, quando eu te foder, eu vou sentir tudo, dita com a boca molhada de chuveiro, três semanas atrás, gravada nele a ferro quente. — Pois é. O carrinho virou entrega.

Ela abriu o lacre com a unha, afastou o papel de seda e ergueu o objeto contra a luz da cozinha: vinho-escuro, curvo, de dois lados — um curto e bulboso, um longo e eloquente —, sem alça, sem arnês, sem desculpa.

— Lapis — apresentou. — A parte curta fica em mim. Presa por dentro, encaixada onde interessa. A longa fica em você. E os dois lados vibram, meu amor. Juntos. — Ela girou o brinquedo devagar, deixando a física falar por ela, e concluiu com a tese que dava nome à noite que ainda não tinha data: — Da última vez eu te fodi por procuração, com o arnês de mentira. Da próxima, eu te fodo em carne viva. Quando você gemer... eu vou sentir o motivo.

✦ ✦ ✦

Ela não marcou a data. Essa era a tortura — sempre foi, em todos os volumes: o poder dela morava menos no que fazia e mais no quando fazia.

Em vez de data, ela instaurou a semana de estudos. Toda noite, na cama, antes de dormir, ela lia o manual em voz alta — deitada de lado, os óculos de ler na ponta do nariz, o tom neutro de quem lê bula de remédio — e transformava especificação técnica na pornografia mais eficaz já impressa em papel de gráfica: "três motores... sete padrões de vibração... sincronização por aplicativo... resistente à água" — pausa, olhar por cima dos óculos — "resistente à água, meu amor. Anota essa pra um volume futuro."

Ele ficava deitado ao lado, proibido de tocar nela nas noites de leitura — regra dela, claro —, ouvindo a mulher que amava ler um manual de brinquedo como quem afia faca na pedra, devagar, dos dois lados.

No sábado, sem aviso, os estudos acabaram. Ela apareceu na porta do banheiro enquanto ele escovava os dentes, encostou no batente e disse, no tom de quem avisa que o jantar já saiu:

— É hoje. Cospe e vem.

O preparo dele, ela conduziu como quem paga uma dívida com juros de carinho — porque a lição do volume anterior agora era lei da casa: casa fria não abre porta. Deitou-o de bruços na cama e desceu pelas costas dele com a boca em passo de procissão, vértebra por vértebra, as unhas riscando de leve o caminho já beijado, até ele derreter no colchão feito cera de vela esquecida no sol. No criado-mudo, o frasco de lubrificante da outra estreia — meio usado, veterano de guerra — esperava ao lado do caçula negro emprestado da coleção dela.

— Empina — mandou ela, baixinho, mordendo onde a lombar dele virava outra coisa. — Confia e empina.

E então ela o beijou onde os súditos beijam a rainha — a grega devolvida na direção inédita, a língua dela circulando a porta dele com paciência de perversa diplomada, com pós-graduação —, e ele entendeu, com um gemido de escândalo, por que ela tinha gritado daquele jeito na coroação: aquilo desmontava. Aquilo reescrevia hierarquias por dentro, sem pedir licença ao orgulho. Ela riu contra a pele dele, sentindo o efeito nas coxas dele que tremiam:

— Escandaloso. E eu ainda nem liguei nada na tomada.

O dedo veio depois, cheio de lubrificante e de calma; depois o caçula, que entrou macio e ficou, vibrando baixinho enquanto ela terminava de abrir a casa inteira — e quando ele já estava pronto, aberto e implorando em prosa livre com a cara no travesseiro, ela se levantou da cama e deixou-o esperando de propósito mais um minuto inteiro, só para buscar um copo d'água que ninguém tinha pedido, bebericando no caminho de volta, nua e tirânica, a silhueta recortada na luz do corredor.

— Que foi? — perguntou, inocentíssima, pousando o copo. — Espera faz parte. Você mesmo escreveu isso em algum lugar.

✦ ✦ ✦

Vesti-lo — vestir o Lapis — foi um espetáculo à parte, e ela fez questão de plateia: de pé, ao lado da cama, na frente dele, os joelhos levemente flexionados, ela deslizou a parte curta para dentro de si com um gemido de encaixe que valeu por um capítulo inteiro. Quando se aprumou, o brinquedo apontava dela como se sempre tivesse estado ali — anatomia adquirida, escritura averbada em cartório.

— Olha pra mim. — Ela ligou a vibração dos dois lados no nível um e a voz dela falhou junto com o joelho esquerdo. — Ai. Caralho. Isso vibra em mim quando... tá. Entendi o produto. Aprovado. — Ela respirou fundo, dominou o próprio tremor com a disciplina de quem manda até em si mesma, e chegou à beira da cama, o brinquedo à altura da boca dele: — Mas antes do "de quatro"... uma cerimônia que não tá no manual. Chupa. Olhando pra mim. Molha o que vai te foder — a voz dela desceu uma oitava — ...e vai molhando devagar, porque a base repassa TUDO, e eu quero sentir cada chupada aqui dentro.

Ele chupou. Olhando. E ela assistiu de cima com os lábios entreabertos e o fôlego encurtando, porque não era teatro: cada descida da boca dele no Lapis empurrava a base contra ela por dentro, e ela gemeu a cena inteira, a mão fechada no cabelo dele, guiando a própria felação por procuração — mais fundo... isso... que boca linda... se você soubesse como isso chega aqui dentro, você não parava nunca mais.

Quando o brinquedo saiu da boca dele brilhando, ela deu o veredito com a voz já destruída e o comando intacto:

— Pronto. Agora sim. De quatro, meu amor. A recíproca chegou.

✦ ✦ ✦

Ela entrou nele como ele tinha entrado nela: um centímetro e estátua, um "espera" e mármore, um "vai" e degelo — simetria, a palavra dela, cumprida agora no corpo, o protocolo da porta rodando na direção oposta com a mesma liturgia palavra por palavra. Mas havia a novidade, e a novidade reescrevia tudo: cada movimento que ela fazia nele voltava para ela. A parte interna pressionava e vibrava dentro dela no compasso exato das estocadas, e o quarto virou um circuito fechado de gemido — ele gemia, ela sentia, ela gemia, ele ouvia, e o som de um alimentava o quadril do outro numa retroalimentação que nenhum dos dois sabia operar e os dois aprenderam juntos, aos gritos, em tempo real, sem manual para essa parte.

Agora eu entendi — arfou ela, fodendo-o devagar e fundo, as mãos cravadas no quadril dele, a voz desfeita de prazer duplo. — Agora eu entendi por que vocês ficam idiotas. Isso aperta... isso chupa de volta... — uma estocada mais funda, um gemido em dueto — ...que droga maravilhosa. Eu vou te foder até acabar a bateria.

— A bateria dura horas...

— Eu sei. — E dava para ouvir o sorriso na voz dela. — Eu li o manual. Em voz alta. Você tava lá.

Ela o fodeu em três atos, como boa dramaturga que era: devagar e fundo até ele implorar; rápido e raso até ele xingar o sobrenome dela; e por fim no ritmo que descobriu ser o dela — o que fazia a parte interna trabalhar no ponto exato dentro dela —, e nesse ritmo ela gozou primeiro, fodendo ele, desabando por cima das costas dele com o orgasmo atravessando os dois corpos por vias diferentes ao mesmo tempo, gritando uma frase que começou ordem e terminou vogal pura.

E não parou. Atravessou o próprio terremoto ainda dentro dele, esticou a mão por baixo, fechou-a no pau dele abandonado e escorrendo, e comandou o final com a última voz que lhe restava:

— Junto agora. Goza com a sua dona dentro de você.

Ele explodiu na mão dela com ela inteira no fundo dele, a vibração dupla costurando os dois pelo avesso — e o grito que saiu dele fez os vizinhos, historiadores oficiais da série, acrescentarem ao arquivo um capítulo novo e insolúvel, sem data e sem explicação.

Ela saiu dele devagar, mas não largou a mão suja. Trouxe-a para a frente, aberta, o gozo dele escorrendo entre os dedos dela, e provou um dedo ela mesma, sem pressa, de olho nele por cima do ombro — hm. Seu. — Depois estendeu o segundo dedo até a boca dele, e a palavra que acompanhou o gesto era o título da noite:

Reciprocidade. Abre.

Ele abriu. Provou o próprio gosto na mão da mulher que acabava de fodê-lo — e a última fronteira da noite caiu sem cerimônia nenhuma, os dois rindo sujo no meio do escombro, empatados em tudo, devassos em dose registrada em cartório.

✦ ✦ ✦

Ela desmontou o Lapis de si com um suspiro de despedida, largou-o na toalha e desabou por cima das costas dele, pele com pele, o coração dela batendo contra as costelas dele como um segundo relógio da casa. Na cozinha, esquecidos desde o começo de tudo, os três abacates amadureciam no escuro, testemunhas de nada.

— Balanço — disse ela, ofegante, a boca na nuca dele. — Da primeira vez, lá nas antigas, eu te fodi e você sentiu tudo sozinho. Egoísta. Hoje nós dois pagamos o mesmo imposto. Isso é justiça fiscal.

— Você acabou de gozar fodendo um homem e a conclusão é tributária.

— Eu sou multifacetada. — Ela mordeu o ombro dele, riu, e ficou um tempo quieta, desenhando com o dedo, nas costas dele, alguma coisa que ele não conseguiu ler. Quando falou de novo, tinha aquele tom de agenda que ele aprendeu a temer e a amar no mesmo reflexo: — Semana que vem tem o batizado. Do bebê dos meninos.

— Eu lembro. Comprei a lembrancinha.

— Eu também. — Pausa de três segundos, medida em risco. — Lembra da nota fiscal antiga? Quantidade: dois? — O corpo inteiro dele lembrou antes dele. — Pois é. Dessa vez não vai ser só você de segredo por baixo da roupa, meu amor. Dessa vez... — ela beijou a nuca dele e a frase desceu junto, quente — ...nós vamos os dois carregados. E os dois controles, óbvio, vão comigo.

— Isso devia te dar juízo.

— Devia. Mas você me conhece: me dá é ideia.

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