
"Essa porta só abre do meu jeito, no meu prazo, com o meu protocolo."
A caixa chegou numa segunda-feira de chuva, entregue por um motoboy que mascava chiclete de boca aberta e não fazia a menor ideia do que carregava — embalagem parda, remetente genérico, o pacote mais discreto e mais explosivo que aquela portaria já registrou em toda a sua história de encomendas. Ela assinou o recibo com a chave do apartamento ainda na outra mão, subiu, fechou a porta, e mandou a foto para ele antes mesmo de tirar o casaco molhado: a caixa fechada sobre a mesa, e a legenda em duas frases.
"Chegou. A obra da expansão começou. E antes que você pergunte: não, você não participa dessa fase. Você espera. Esperar você já sabe — eu mesma te ensinei."
Ele leu a mensagem três vezes e entendeu do que se tratava com o corpo antes do cérebro: um calor descendo pela espinha, a lembrança fresca da promessa que ela tinha adormecido em cima, duas semanas antes, no fim da coroação — quando a outra porta abrir, você vai ser o primeiro a saber. Dentro da caixa parda, ele sabia sem abrir, morava o irmão caçula do brinquedo que ele mesmo tinha vestido um dia inteiro num casamento: o menor do catálogo, macio, negro, paciente.
Dela. Só dela, por enquanto. E essa era exatamente a faísca: ele não ia ver nada.
As três semanas seguintes foram a coisa mais lenta e mais indecente que ela já tinha feito com ele — e ela nem estava lá.
O estágio, ela batizou. Regras do estágio: ele não perguntava, não sugeria, não apressava. Ela contava o que quisesse, quando quisesse, no formato que quisesse — e o formato escolhido, claro, foi o áudio noturno, a arma histórica da casa, a artilharia pesada. Os relatórios chegavam entre onze e meia-noite, sempre com a voz no volume de travesseiro, e cada um era um conto inteiro comprimido em trinta segundos:
"Relatório um. Dez minutos com ele hoje. Esquisito. Bom-esquisito. Não é o que eu esperava — é mais... presente. Fica aí, quietinho, me lembrando que existe. Eu fiz chá depois e ele ficou. Tomei chá de hortelã com um segredo dentro de mim e ninguém no prédio desconfiou. Boa noite."
"Relatório sete. Meia hora, andando pela casa. Varri a sala com ele. Ri sozinha no meio — porque varrer a sala nunca foi tão interessante, e porque eu lembrei de você sete horas de terno num casamento e entendi TUDO em retrospecto. Você é mais forte do que parece. Ou mais safado. Os dois. Boa noite."
"Relatório treze. Hoje eu gozei com ele dentro. Sozinha, na cama, com a mão e com ele, pensando em você. Foi... diferente. Mais cheio. Mais embaixo. Não vou descrever mais que isso porque descrição é mercadoria e você ainda não pagou. Falta pouco. Boa noite, meu amor. Sonha comigo de porta nova."
Ele guardava cada áudio na pasta — porque a essa altura da série ele também tinha uma pasta, aluno que copiara o método do professor — e reouvia nos horários errados: no meio da tarde, na fila do mercado com o cesto numa mão e o fone no ouvido, cercado de gente comprando arroz sem imaginar que ao lado deles um homem ouvia, pela nona vez, a mulher da vida dele dizer mais cheio, mais embaixo. A espera dela era arquitetada, com planta e cronograma; a dele, apenas sofrida. Ele dormia mal e acordava pior, e ela sabia, e era esse exatamente o produto: três semanas de um homem inteiro marinando na própria imaginação.
Na quinta-feira da terceira semana, 22h47, o celular vibrou uma única vez. Sem relatório. Sem número. Uma palavra:
"Vem."
O quarto estava preparado como um altar de trabalho — e ele reconheceu a assinatura litúrgica dela em cada detalhe: luz de abajur com um lenço por cima, a toalha grande estendida sobre o lençol com os cantos alinhados a esquadro, o frasco de lubrificante novo no criado-mudo, grande, sem timidez, ao lado do caçula negro, limpo, à espera, veterano de vinte e um dias de estágio. Na rua, um carro passou com o rádio alto demais e sumiu na esquina, levando o resto do mundo junto no porta-malas.
Ela o recebeu já despida, calma como véspera de posse, e segurou o rosto dele com as duas mãos antes de qualquer beijo.
— Regras da porta. — Os olhos dela estavam enormes, e havia nervo neles, e havia fome, e os dois brilhavam juntos sem se atrapalhar. — Um: o ritmo é meu, milímetro por milímetro. Você não empurra, não apressa, não "ajuda". Você atende. Dois: lubrificante não tem dose máxima — na dúvida, mais. Três: se eu disser "espera", você vira estátua. Se eu disser "sai", você sai sorrindo e a noite continua ótima em outro endereço. — Ela puxou o lábio de baixo dele com os dentes, devagar, e soltou: — E quatro: se eu disser "vai"... você vai. Sem me tratar como vidro. Eu treinei vinte e um dias pra essa estreia. Estreia se faz inteira.
— Aceito todas. — A voz dele saiu mais baixa do que ele planejou. — Alguma pergunta antes de começar?
— Uma. — Ela sorriu, e o nervo perdeu a eleição para a fome por larga margem. — Por onde você acha que se abre uma casa: pela porta... ou pelo resto dela?
Era pegadinha, e ele passou no exame: começou de longe.
Beijou-a de cima a baixo pelo tempo que uma casa fria leva para esquentar — boca, pescoço, o vão entre os seios onde o coração dela batia mais rápido do que ela jamais admitiria, a barriga, o quadril. Virou-a de bruços e desceu pelas costas vértebra por vértebra, as mãos abrindo caminho na frente da boca, até chegar onde a lombar deixa de ser coluna e vira convite — e ali ela mandou ficar: morde. Aperta. Faz de conta que é seu... que hoje vai ser.
Quando a língua dele desceu pelo vale e beijou a porta em cerimônia — a grega devolvida, o favorito servindo à véspera da posse —, ela gemeu comprido no travesseiro e xingou com ternura, o quadril empinando sozinho, sem pedir licença à própria dona. Ele lambeu o proibido em círculos pacientes até senti-la derreter de dentro para fora, até a coxa dela tremer sob a mão dele, até ela esquecer por um instante que era a arquiteta do projeto e virar só moradora da própria obra.
— O caçula — ordenou, rouca, olhando para trás por cima do ombro com o cabelo colado na boca. — Do jeito dos relatórios. Devagar... e com o dedo cheio de carinho antes.
Ele obedeceu à risca. Lubrificante em quantidade que desafiava a engenharia; o dedo primeiro, paciente, circulando sem entrar até ela empurrar-se contra ele — porque a regra um dizia que o ritmo era dela, e o ritmo dela dizia agora —; depois o brinquedo, que deslizou para dentro com a facilidade de vinte e um dias de treino e arrancou dela um suspiro de alívio e orgulho misturados, o suspiro de quem colhe o resultado do próprio estágio.
— Viu? — Ela exibiu-se por cima do ombro, cheia, pronta, a base do caçula brilhando entre as nádegas como um lacre oficial. — Estagiária dedicada. — E pegou o celular no criado-mudo, ligou o brinquedo no nível baixo e gemeu com o próprio truque, rindo do próprio gemido. — Agora me fode do jeito normal, com ele dentro. Eu quero chegar na porta grande já em festa.
A festa quase encerrou a noite antes da hora. Ele entrou nela por onde sempre entrava e encontrou uma mulher nova: mais apertada, mais cheia, atravessada de vibração, gemendo no primeiro movimento o que costumava guardar para o décimo — caralho, é DUPLO, por que ninguém me avisou que era duplo —, e gozou a primeira em minutos, curta e violenta, agarrada à toalha de cantos alinhados que perdeu o alinhamento para sempre. Ele segurou o próprio fim com heroísmo contábil, contando azulejos imaginários, um por um, porque a noite tinha um destino marcado e ele pretendia chegar inteiro à posse.
Ela decidiu a hora. Claro que ela decidiu a hora.
Tirou o caçula ela mesma, devagar, com um gemidinho de despedida, e ajeitou-se como tinha planejado nos vinte e um dias: de bruços, um travesseiro sob o quadril, os joelhos afastados, aberta, entregue e no comando absoluto — a combinação impossível que só ela no mundo sabia operar sem curto-circuito. Esticou a mão para trás, encontrou ele, guiou-o até a entrada nova e falou com a voz num fio que misturava medo bom e fome má:
— Só a cabeça. E para. Eu digo quando anda.
Ele entrou como quem pisa em igreja: um centímetro, e estátua. O calor dela em volta dele era outro país — mais estreito, mais quente, pulsando inteiro —, e ela respirava fundo embaixo, administrando a própria conquista, narrando para ele e para si mesma: tá entrando... meu Deus, tá entrando... que cheio... espera... espera... ...vai.
E ele ia. Centímetro, estátua, centímetro, o lubrificante renovado duas vezes sem ela precisar pedir, o quadril dele obedecendo a uma mulher que conquistava território falando — até encostar nela por inteiro, os dois soldados, imóveis, ela com ele todo dentro por onde ninguém nunca, o quarto num silêncio de recorde mundial.
— Fala alguma coisa — sussurrou ele, sem fôlego, a testa no ombro dela.
— Minha. — A voz dela saiu embargada e vitoriosa. — A porta é minha, a casa é minha, o convidado é meu. Agora dança, convidado. Devagar... que a dona quer sentir cada passo.
Dançaram devagar. Depois menos. E então ela esticou a mão dele por baixo do próprio corpo e plantou os dedos dele na buceta encharcada, com a instrução mais suja das três semanas inteiras:
— Me enche. As duas ao mesmo tempo. Eu quero ficar sem vaga.
E ele a fodeu atrás com três dedos dentro na frente, ela empalada em dobro, xingando num idioma inventado na hora, gozando a segunda tão forte que quase o expulsou de onde tinha custado vinte e um dias para entrar — e no fim, porque ela mandou, agora sim, agora de verdade, eu aguento, eu QUERO, dançaram sem educação nenhuma até ele desabar dentro dela, no lugar mais novo do mundo, com o nome dela na boca e o resto do vocabulário abolido por decreto.
— Não sai. — A voz dela veio esmagada no travesseiro, imperial mesmo desfeita. — Fica. Quietinho. Eu quero decorar isso. — Um minuto inteiro de pulsação parada, o rádio de outro carro passando lá fora, o mundo sem saber de nada. Então ela o soltou devagar: — Agora sai... devagar... e olha. — Ele saiu. Olhou: a obra escorrendo dela, obscena e linda, assinada. — Memoriza. É a única vez que você vê essa porta assinada... — pausa de tabeliã — ...este mês.
O banho foi junto, porque protocolo tem pós-produção — ela no comando até do chuveiro, ensaboando as costas dele como quem lava um instrumento de estimação. O espelho embaçou, o boiler reclamou, e ela deu o veredito oficial por cima do barulho da água:
— Balanço da estreia: aprovadíssima. Dói menos que salto fino e rende mais que elogio. — Ela virou-o de frente, o rosto pingando, e apontou o dedo molhado no peito dele: — Mas anota no seu contrato: a porta continua sendo convite. Nada de achar que virou rota.
— Anotado. Frequência de rainha.
— Exato. Quando a coroa quiser. — Ela ficou um tempo com a testa encostada no queixo dele, a água descendo pelos dois, e ele sentiu o sorriso dela mudar de formato antes de ouvir o motivo. — Sabe o que eu fiquei pensando esses vinte e um dias? Você ganhou uma porta nova hoje... e eu ganhei há muito tempo, lá no volume das antigas, aquele do arnês de mentira. Só que naquela época... — ela ergueu o rosto, e os olhos dela já estavam no próximo capítulo, folheando adiante — ...eu te fodi inteirinho e não senti nada. Injustiça tributária.
— E a senhora pretende...?
— Revanche. Com tecnologia. — Ela fechou o registro do chuveiro com a pompa de quem encerra uma audiência e o beijou com a boca ainda molhada: — Já tá no carrinho, meu amor. Dessa vez, quando eu te foder... eu vou sentir tudo.

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