
"Semana que vem você conhece a sua nova colega de trabalho."
A colega de trabalho chegou numa caixa grande demais para ser discreta, com um adesivo de FRÁGIL rasgado ao meio e um manual em inglês que prometia, em fonte entusiasmada, o que nenhum ser humano promete de cara limpa: performance infinita, ritmo perfeito, zero fadiga. Ele leu a caixa na mesa da sala com a desconfiança exata de quem lê o currículo de um rival mais jovem.
— Uma máquina de boquete — resumiu.
— Uma funcionária. — Ela confiscou o aparelho com as duas mãos e o ergueu contra a luz, cilindro elegante, entrada macia, motor silencioso. — Contratada por mim. Subordinada a mim. Operando sob as minhas ordens, no meu app, no meu polegar. Você não vai usá-la nunca, meu amor — não é sua. Eu vou usá-la em você. — Ela guardou a caixa no armário dela, do lado dela, e girou a chave, de verdade dessa vez. — É a diferença entre ter um carro... e ter um motorista.
A admissão da funcionária levou uma semana — porque ela decidiu que equipamento novo merecia processo seletivo, e processo seletivo, na casa dela, era gênero literário com começo, meio e clímax.
Na segunda-feira, ele recebeu por mensagem um convite de agenda, formal, com direito a horário e pauta: "Sexta, 21h — Entrevista de admissão. Participação obrigatória do material de teste." O material de teste era ele. Na quarta, um áudio administrativo:
"Atualização do processo: a candidata foi carregada, higienizada e sincronizada com o meu aplicativo. Fiz o teste de mesa — na mesa mesmo, ligada, só pra ouvir. Ela é silenciosa que dá medo. Você vai gemer mais alto que ela, isso eu já garanto. Sexta, nove. Não se atrase pra sua própria substituição."
E na sexta de manhã, a estocada final da semana, disparada às 8h11, quando ele ainda nem tinha tomado café:
"Detalhe da pauta que eu esqueci: eu também contratei uma assistente pra MIM. Chegou junto na caixa, você não viu. Hoje à noite, enquanto a sua colega trabalha em você... a minha trabalha em mim. Na poltrona. De camarote. Pensa nisso o dia inteiro — é uma ordem."
Ele pensou. O dia inteiro, conforme a ordem, inútil para o mundo e todos os seus compromissos. À noite, o quarto o recebeu montado como um teatro de operações, a assinatura litúrgica dela em cada detalhe: ele deitado, escorado nos travesseiros, despido; a máquina posicionada e conectada, discreta e paciente como toda profissional competente no primeiro dia; e ela na poltrona do canto, a três metros — de camisola curta, uma perna dobrada sob o corpo, o celular numa mão e, na outra, a assistente: o Osci, curvo e cor-de-rosa, ainda com o brilho de coisa recém-desembalada.
— Regras do expediente. — Ela abriu o app com o polegar de sempre, e o cursor de velocidade apareceu na tela como um cetro novo, digital. — A funcionária faz o trabalho braçal. Eu faço a gerência: velocidade, profundidade, pausa — tudo daqui. Você faz a parte mais difícil, que é não gozar sem alvará. Regra da espera, edição tecnológica. — Ela recostou, ajeitou a camisola para fora do caminho sem nenhuma pressa, e concluiu: — E enquanto isso eu cuido de mim, na sua frente, no meu ritmo. Você vai assistir tudo e não vai poder nada. Alguma dúvida?
— Uma. Se eu implorar?
— Aí eu aumento. — Ela sorriu, terrível e linda na luz do abajur. — A velocidade dela ou a minha maldade. É surpresa. Faz parte do pacote.
E ligou.
A primeira reação dele foi um palavrão de espanto sincero, porque a propaganda, para a desgraça dele, era honesta: a boca de silicone o engoliu com uma perfeição desumana — ritmo de metrônomo, pressão calibrada, sem pausa para respirar porque máquina não respira, não cansa, não tem piedade nem por engano. E a segunda reação foi pior: o som. O Osci tinha começado do outro lado do quarto, um zunido grave e úmido, e por cima dele a respiração dela mudando de andar — e ele descobriu, preso entre os travesseiros, que dos dois estímulos o insuportável era o dela: a mulher da vida dele aberta na poltrona, os dedos de uma mão afastando a própria pele para o brinquedo trabalhar, os olhos cravados nele enquanto se dava prazer, narrando as duas cenas com a boca suja em pleno vigor:
— Olha nós dois... você aí, chupado por um robô no ritmo que eu escolho... eu aqui, me fodendo no ritmo que eu escolho também... — o primeiro gemido dela atravessou o quarto e apertou nele mais que a máquina — ...tudo nessa casa anda no meu ritmo, meu amor. Até a inteligência artificial. Principalmente ela.
Ela pausou a máquina pela primeira vez um segundo antes do abismo — o edging terceirizado para o silício, mas assinado por ela, sempre por ela — e riu baixinho do som que ele fez, um protesto de bicho grande sendo contrariado. Retomou. Pausou. Retomou. Na poltrona, a assistente dela trabalhava sem pausa nenhuma, porque a gerência tinha outro contrato consigo mesma, e a primeira gozada dela veio esparramada e escandalosa, as coxas fechando no próprio pulso, o Osci zunindo afogado — e ela atravessou o orgasmo inteiro sem soltar o celular, o polegar pairando sobre a pausa dele, porque poder é isso: lembrar do botão dele até quando os dela apertam sozinhos.
Na terceira pausa, ela decidiu que a poltrona ficava longe demais da obra.
Levantou com as pernas ainda trêmulas da primeira gozada, atravessou o quarto devagar — o Osci pendurado nos dedos, o cabelo colado na têmpora, a camisola abandonada no caminho como pele trocada por cobra — e subiu na cama de joelhos, por cima do rosto dele, de frente para os pés, com a vista completa da linha de produção.
— A gerência — anunciou, pairando a um palmo da boca dele, molhada e soberana — resolveu supervisionar de perto.
E sentou na cara dele no exato segundo em que o polegar religava a máquina lá embaixo.
Foi a configuração mais devassa que aquele quarto já testemunhou — e o quarto tinha currículo, tinha lombada, tinha acervo. Ele, espremido entre dois prazeres, sem comando sobre nenhum: a funcionária o chupando embaixo no ritmo do polegar dela, ela cavalgando a língua dele em cima no ritmo do próprio quadril, o Osci imprensado no clitóris por cima da boca dele quando ela queria o triplo — tudo junto, molhado, indecente, o trono do volume dezenove reinstalado sobre uma linha de montagem industrial.
— Chupa. — O quadril dela girando, tomando. — Isso... língua funda... e nem pensa em gozar com a boca ocupada, que distração na sua função... — o fôlego dela quebrou, recompôs — ...dá justa causa.
Ela gozou a segunda ali, esfregada nele, gritando para o teto sem nenhum protocolo de batizado, som aberto, reino inteiro — e pausou a máquina no meio do próprio orgasmo, o polegar encontrando o botão às cegas, deixando-o suspenso na borda enquanto ela desabava por cima, porque nem o terremoto dela suspendia a regra dele. Quando desmontou da cara dele, arrastando-se para o lado com um resto de riso, o queixo dele brilhava dela e a voz dele saiu em frangalhos:
— Selene. Pelo amor. Ela não cansa...
— Eu sei. É a funcionária do mês. — Ela apoiou-se num cotovelo, avaliou o estado dele — pupila, fôlego, o pau pulsando dentro da boca de silicone pausada — com olho de perita, e tomou a decisão que a noite inteira vinha preparando em fogo baixo. Desligou a máquina pelo app. Removeu-a dele com cuidado de gerente que zela pelo equipamento, pousou-a no chão já sem olhar, e ajoelhou-se entre as pernas dele, a boca a um centímetro do destino, os olhos subindo para ele pela última vez: — Mas sabe qual é o problema dela? Ela não tem língua quente. Não tem cuspe. Não tem olho no seu olho. Não sabe seu nome. E principalmente... — a língua dela subiu por ele inteiro, lenta, humana, imperfeita, devastadora — ...ela não tem fome. Eu tenho.
E chupou. Do jeito dela — sem métrica, molhado, guloso, com gemido e unha e o cabelo varrendo a barriga dele, tecnicamente inferior à máquina e existencialmente imbatível —, e ele, calibrado por uma hora de perfeição de fábrica, descobriu que a imperfeição era o ponto: durou noventa segundos.
— Posso? — implorou, no limite exato do limite.
— Na minha boca. Agora.
Ele gozou com um grito que apagou uma hora de silício da memória do quarto, o corpo inteiro quitando a noite de uma vez — e ela recebeu tudo, sem recuar um milímetro, e subiu depois com o queixo erguido e o sorriso de quem venceu a tecnologia por nocaute técnico no último assalto.
Ela guardou a funcionária na caixa, a caixa no armário, a chave no lugar que ele nunca descobriu. Voltou para a cama com dois copos d'água — um para cada sobrevivente — e desabou ao lado dele com a satisfação administrativa de uma gestora em dia de meta batida com sobra.
— Avaliação de desempenho — anunciou, contando nos dedos. — A funcionária: dez em técnica, zero em alma. Fica no elenco. A assistente: promovida, uso contínuo. Você: sobreviveu ao teste de estresse com nota máxima e um grito que o prédio inteiro arquivou. — Ela encaixou-se no peito dele, o cabelo ainda úmido de esforço alheio e próprio. — E eu... eu descobri o meu cargo definitivo. Nem juíza, nem rainha, nem dona. Operadora. Tudo isso junto, sentada, com um polegar.
Ele riu, exausto, e beijou a testa dela. Foi quando sentiu, contra a pele, o sorriso dela mudar de formato — o formato de agenda, o que precedia todos os volumes da série.
— Que foi?
— Nada. — Pausa longa demais para ser nada. — Semana que vem eu viajo, lembra? Três dias fora. — Ela ergueu o rosto do peito dele, e os olhos dela, no escuro, já estavam no próximo capítulo, a quatrocentos quilômetros de distância: — A funcionária fica... o app vai comigo. Já pensou? Você na cama, ela trabalhando, e eu longe com o polegar no seu destino, te vendo pela câmera, mandando áudio...
— Você não ia fazer isso comigo.
— Meu amor... — ela deitou de volta, bocejou, e apagou a luz com a mesma mão que governava o mundo — ...eu já comprei o tripé.

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