
"Uau! Delícia pensar em estar no comando", ela respondeu, um dia, no meio de uma conversa que já não tinha mais volta — e ele arquivou o "uau" com data, porque ela não gastava essa palavra à toa. Depois completou, para não deixar dúvida de que não era teoria: "eu vou conduzindo. Eu que mando. Eu digo a hora."
E no sábado da salsa, já no fio do sono, ela tinha avisado o formato: conduzir sem mão nenhuma. Sem sair de casa. Só com a voz.
Ele achou que era conversa de travesseiro. Ele nunca aprendia.
As ordens começaram na segunda-feira, às nove da manhã, por áudio.
"Bom dia, lindo. Hoje o dia funciona assim: eu mando, você faz. Primeira ordem: café sem pressa. Você vive engolindo o café — eu já vi, parece que alguém vai roubar a xícara. Hoje não. Senta e toma direito. Depois me conta o gosto."
Ele riu sozinho na cozinha, achando graça da encenação. Obedeceu por brincadeira: sentou, tomou devagar, prestou atenção pela primeira vez em anos no gosto do próprio café. Contou por áudio, caprichando na crônica. E ganhou de volta um "muito bem" dito num tom que transformou a brincadeira em outra coisa — duas palavras, quatro letras cada, e alguma coisa desceu pela espinha dele e se instalou, com mala, para ficar.
As ordens continuaram o dia inteiro, espaçadas de propósito, cada uma chegando quando o efeito da anterior começava a baixar — ela dosava como quem conhece farmacologia.
"Segunda ordem: no almoço, escolhe o que você NUNCA pede."
"Terceira: agora fica dez minutos sem telefone. Só pensando em mim. Eu vou saber se você roubar."
Nenhuma era sobre sexo. Todas eram sobre sexo. Essa era a gramática secreta do dia, e ele a decifrou tarde demais, já dentro dela: cada ordem pequena era um ensaio de obediência, um nó a mais numa amarra que não usava corda. Ao fim da tarde, ele estava treinado como um instrumento afinado corda por corda — e ela não tinha encostado nele nem uma vez. Não tinha nem saído de casa.
Às sete, o último áudio do dia:
"Última ordem por mensagem. Vem pra cá às nove. Toma banho antes, capricha. E escuta bem: da porta em diante, suas mãos não existem mais. Elas só voltam a existir quando a minha voz mandar. Quem amarra hoje é a minha voz. Vamos ver se ela dá conta."
Dava conta. Ele sabia que dava. Era a voz que o desmontava por telefone havia semanas — a que amanhecia rouca, a que ria no meio da própria frase, a que dizia lindo de um jeito que devia ser regulamentado por lei. Ele passou uma hora escolhendo camisa como um adolescente antes do primeiro encontro, e chegou às nove em ponto com as mãos já se sentindo estranhas na ponta dos braços — dois funcionários avisados da demissão, cumprindo o último expediente.
Ela abriu a porta de vestido simples, descalça, sem produção nenhuma.
E isso era o detalhe mais assustador da noite. Nada de jaleco, nada de coleira, nada de figurino. Ela não precisava de fantasia hoje — o poder estava em outro lugar, guardado na garganta.
— Regras — disse, sem boa-noite, começando a andar ao redor dele devagar, como quem inspeciona uma entrega antes de assinar o recibo. — Você não toca. Você não decide. Você não antecipa. Você responde. À voz. Só à voz. Entendeu?
— Entendi.
— Entendi, quem?
Ele engoliu seco. Sorriu por dentro do próprio nervosismo, aquele sorriso interno de quem reconhece a armadilha e entra assim mesmo, de gravata:
— Entendi, Selene.
— Serve. — Ela parou na frente dele, perto demais para ser educado, longe demais para ser alívio. — Por enquanto.
E começou o concerto.
— Fica parado. — Ela beijou o pescoço dele com a boca aberta, lenta, úmida, e as mãos dele subiram por puro reflexo, dois animais desavisados. — Mãos.
As mãos morreram de volta ao lado do corpo.
— Boa. Aprende rápido. — Ela sorriu contra a pele dele. — Isso vai ser um problema pra você, porque eu pretendo dificultar.
Ela o despiu como quem desembala um presente que já sabe o que é e mesmo assim quer fazer durar: botão por botão, beijando cada pedaço de pele que aparecia, inaugurando cada centímetro com cerimônia — e ele parado, firme por fora, ruindo por dentro, as mãos formigando de inutilidade, o corpo inteiro aprendendo à força uma lição que não estava em manual nenhum: existe um tesão específico — talvez o pior de todos, talvez o melhor — em receber sem poder retribuir. Em ser o objeto do verbo.
— Cama. Deitado. Mãos atrás da cabeça, dedos cruzados. — E quando ele se acomodou, ela completou o edital: — Elas só descem quando eu mandar. E olha... — subiu na cama de joelhos, tirou o vestido por cima da cabeça num movimento só, sem nada por baixo, e ficou ali, ajoelhada ao lado dele, nua, próxima, intocável, um museu de peça única com o alarme ligado — ...eu vou fazer de tudo pra você desobedecer.
Fez.
Desfilou a boca pelo corpo dele em câmera lenta — peito, barriga, a virilha por dentro —, evitando com precisão cirúrgica o único lugar que implorava, e narrando tudo, porque a voz era a corda e ela não deixava o nó afrouxar: "tá vendo como você treme... suas mãos querem tanto... coitadas... presas por uma frase..."
Presas por uma frase. Ele pensou, no meio do naufrágio, que ela tinha inventado a amarra perfeita: não deixa marca no pulso, e não tem como cortar.
Ela sentou sobre as coxas dele e se tocou na frente dele. Sem pressa. Gemendo de olho aberto, cruel, generosa na pior medida possível, o espetáculo inteiro a um palmo das mãos dele algemadas de nada. Ele gemeu de frustração pura, os dedos cruzados brancos de força, a cabeceira rangendo por tabela.
— Selene... pelo amor...
— Amor é exatamente o instrumento — disse ela, ofegante, rindo no meio do próprio prazer. — Pede direito.
— Deixa eu te tocar.
— Não. — Ela deslizou para cima dele, alinhou, e desceu devagar, encaixando os dois gemidos num só. — Mas pode agradecer.
E cavalgou no comando absoluto, exatamente do jeito que tinha prometido em áudio um dia — ela conduzindo, ela ditando, a voz colada no ouvido dele marcando o compasso: agora devagar... agora fundo... segura... se-gu-ra... — o quadril dela mandando e desmandando, acelerando até a borda e parando em cima dela, imóvel, os dois tremendo no fio, só para recomeçar mais lento, mais fundo, mais dela. Três vezes ela o levou até a beira do precipício e o deixou lá, pendurado, obediente, desfeito — e das três vezes ele não desceu as mãos, e das três vezes ela recompensou com um gemido dela, que era a única moeda em circulação naquela casa.
— Mão direita — autorizou enfim, num sussurro rouco. — Só ela. Na minha cintura. Agora.
A mão desceu como um animal solto do canil — e o gemido que ela deu ao ser agarrada depois de tanta espera quase resolveu a noite sozinho, para os dois.
— Esquerda. Aqui. — Ela guiou, colocou, ajustou. — Assim. No meu ritmo. Eu digo a hora.
E na hora que ela disse — agora, junto comigo, agora —, os dois desabaram no mesmo segundo: ela gritando de olho aberto, fiel ao próprio estilo até no fim; ele agarrado nela com as duas mãos ressuscitadas, gozando com o corpo inteiro e com um pedaço a mais que ele não sabia que tinha — e que agora pertencia a ela, com escritura, registro e averbação.
Ela desmontou dele devagar e desabou ao lado, um braço jogado sobre os olhos, o peito subindo e descendo como quem volta de uma apresentação.
— E aí — perguntou, entre fôlegos —, qual foi a pior parte?
Ele pensou de verdade. Percorreu o dia inteiro em retrospecto — as subidas, as paradas, o museu de peça única — e a resposta saiu sincera, do fundo:
— O café da manhã.
Ela ergueu o braço do rosto e olhou para ele, genuinamente intrigada:
— O café?
— Foi ali que eu percebi que ia obedecer o dia inteiro. — Ele virou de lado, ainda sem fôlego, e encarou a autora. — O resto foi só você provando a tese.
Ela riu — a risada escandalosa, a dela, a que nenhum comando continha — e puxou o lençol por cima dos dois, satisfeita como uma pesquisadora com o artigo aceito.
— Anota aí pra amanhã, então.
— Amanhã tem mais tese?
— Sempre tem. — Ela se encaixou no peito dele, e a voz já vinha do começo do sono, o que nela nunca significava desatenção. — Você obedece bonito, lindo... mas é ansioso. Quer tudo agora. — Um bocejo. — Um dia desses eu te ensino a esperar. Esperar de verdade. Aí você me agradece.
— Esperar o quê?
— Essa é a parte boa. — Ela sorriu contra o peito dele, os olhos já fechados, e despachou a última ordem do dia num fio de voz: — Café sem pressa. E me conta o gosto.

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