
"Ansioso...", ela diagnosticou uma vez, rindo, no meio de uma ligação sobre qualquer outra coisa — e a palavra ficou pendurada na linha, balançando. "Você quer tudo agora. Um dia eu ainda vou te ensinar a esperar. E você vai me agradecer."
Ele achou que era força de expressão. Não era. Com ela, nunca era: as frases dela eram todas contratos aguardando data. E a lição da espera tinha sido prometida duas vezes agora — a segunda no fim da noite da voz, num bocejo que soou como assinatura em cartório.
O jogo foi anunciado numa terça-feira, às oito e meia da manhã, com a formalidade de quem publica uma lei no diário oficial:
"Bom dia, lindo. Presta atenção que eu só vou dizer uma vez. Hoje tem regra nova, e é uma só: hoje você não goza. Nem sozinho, nem comigo, nem por acidente. Você só goza quando eu mandar. E eu já aviso, com todo o carinho do mundo: eu não vou mandar tão cedo."
Ele leu a transcrição. Ouviu o áudio. Ouviu de novo, procurando a brecha de humor que não existia. Respondeu com uma piada — "e se eu recorrer da sentença?" — e recebeu de volta três segundos de risada e uma frase que encerrou a jurisprudência para sempre:
"Não tem instância superior. Aqui quem julga, condena e executa sou eu. Nove da noite, aqui em casa. E vem inteiro, porque eu pretendo usar tudo."
O dia foi uma tortura administrada em doses homeopáticas, e ela conhecia o ofício como poucos boticários. Uma mensagem às onze — "acabei de sair do banho e pensei em você. Não vou dizer o quê." Uma foto às duas da tarde: só a alça do vestido caída no ombro, mais nada, o resto por conta da imaginação dele, que trabalhou o expediente inteiro em regime de urgência, sem hora extra paga. Às cinco, um áudio de doze segundos que era só ela respirando — respirando de um jeito específico, um jeito que ele conhecia de outros contextos — e, no final, quatro palavras:
"tá sentindo? Pois é. Multiplica por quatro horas."
Ele chegou às nove em ponto. Tocou a campainha com a solenidade de quem se apresenta para cumprir pena — e a parte mais grave é que tinha passado o dia inteiro ansioso pela cadeia.
Ela abriu a porta de camisola curta, cabelo solto, um copo de vinho na mão — e o olhou de cima a baixo, devagar, item por item, como quem confere se a encomenda chegou conforme o pedido. Pelo visto, chegou. Ela deu passagem com o queixo.
— Deixa eu ver se você entendeu o jogo. Me explica a regra.
— Eu não gozo até você mandar.
— Errado. — Ela bebeu um gole, sem pressa nenhuma, deixando o erro dele envelhecer no ar. — Você não goza nem depois que eu mandar. Você goza quando eu mandar. No segundo exato. Nem antes, nem depois. Antes é desobediência. — Ela sorriu por cima da borda do copo. — E desobediência zera o relógio.
— Zera o relógio?
— Recomeça tudo. Do zero. — Ela pousou o copo na mesinha com um toque de vidro que soou como um martelo de juiz, e chegou perto, o corpo a um centímetro do dele, a boca na orelha: — E eu tenho a noite inteira, meu amor. Eu dormi de tarde especialmente pra isso.
Foi a frase mais assustadora e mais deliciosa que ele ouviu na vida. Uma mulher que planeja a sesta em função da tortura é uma mulher que leva o ofício a sério.
Ela começou pelo mais cruel dos instrumentos disponíveis: a lentidão.
Despiu-o no meio da sala, peça por peça, com pausas para apreciação, comentando o estrago em voz alta como quem visita uma obra e conversa com o mestre: "olha isso... eu ainda nem encostei e você já tá assim... esse jogo vai ser mais curto do que eu planejei... ou muito, muito mais longo." As duas hipóteses saíram da boca dela com o mesmo entusiasmo.
Levou-o para a cama pela mão, deitou-o no meio do lençol como quem posiciona uma peça no tabuleiro, e ajoelhou-se ao lado. E anunciou, com a voz que ele conhecia bem — a rouca, a de comando, a que não pedia licença porque a casa era dela:
— Primeira subida. Presta atenção no caminho, porque você vai fazer ele várias vezes.
A boca dela desceu por ele sem pressa nenhuma, quente, precisa, sabendo exatamente o que fazia e exatamente quando parar de fazer — e quando o corpo dele começou a endurecer inteiro, os dedos agarrando o lençol, a respiração mudando de estado físico, ela parou. Simplesmente parou. Levantou a cabeça, apoiou o queixo na barriga dele e ficou olhando, curiosa, científica, o cabelo derramado sobre o abdômen dele, enquanto ele pulsava no ar a dois dedos da boca dela — dois dedos que valiam um oceano.
— Essa foi a primeira — informou. — Como é que você tá?
— Morrendo.
— Que bom. — Ela beijou a barriga dele, carinhosa como se não fosse a autora do crime, a assassina consolando a vítima. — A segunda é pior.
Era. A segunda veio com as mãos, devagar, no ritmo exato que ele gostava — ela sabia o ritmo, tinha estudado o ritmo em noites de trabalho de campo, e agora usava o ritmo como arma apontada — e parou de novo na borda, no último degrau, um segundo antes do ponto sem volta, com a precisão de quem enxerga o relógio interno dele pelo lado de fora. Ele gemeu uma coisa que não era palavra em idioma nenhum. Ela riu baixinho.
E soprou. De propósito. Só para vê-lo tremer com vento.
— Selene. — A voz dele saiu rachada ao meio. — Você vai me matar.
— Vou. — Ela subiu pelo corpo dele, beijou-o na boca, longa, funda, roubando o resto de fôlego, e falou contra os lábios dele: — Mas mato devagar. É a minha assinatura.
Na terceira subida ela tirou a camisola e sentou nele — e ele entendeu, tarde demais, que as fases anteriores tinham sido as fases fáceis. Porque agora ela cavalgava lenta, encaixada, quente, gemendo o próprio prazer sem nenhuma cerimônia, gozando do banquete na frente do faminto — e a regra continuava valendo só para ele. Essa era a beleza perversa da arquitetura, e os dois sabiam: ela podia. Ele não. A assimetria era o jogo inteiro.
— Isso não tá no contrato — protestou ele, entre dentes, agarrado à sanidade pelos últimos três dedos.
— Cláusula terceira — respondeu ela, sem parar, a voz falhando de prazer e nem por isso um grau menos firme: — A casa sempre ganha.
E gozou na frente dele, sem pedir licença, cravando as unhas no peito dele, escandalosa e linda, o espetáculo completo a centímetros do espectador algemado — e parou de novo em cima dele logo depois, imóvel, sorrindo com o rosto ainda desfeito, enquanto ele implorava com o corpo inteiro por três centímetros de movimento que ela não concedeu.
— Quarta — contou, ofegante, os olhos brilhando como quem confere um placar favorável. — Você tá indo muito bem. Melhor do que eu esperava. — Inclinou-se, a boca na orelha dele, e sussurrou a pergunta mais sádica do repertório da casa: — Quer que eu mande agora?
— Quero. Pelo amor de Deus.
— Eu sei que quer. — Ela beijou o pescoço dele, demorada, saboreando a própria resposta antes de dar. — Por isso ainda não.
Ele perdeu a conta na sexta subida.
O tempo tinha virado outra coisa — não passava: escorria, grão por grão, e cada grão era ela. A boca dela. O quadril dela. A voz dela narrando no ouvido dele o que fazia e o que ainda ia fazer, o futuro usado como instrumento de tortura do presente. Ele estava reduzido ao essencial, destilado: um corpo inteiro transformado em espera, um homem que já não lembrava o que era querer qualquer outra coisa na vida além da permissão dela. A lição, entendeu ele por dentro do delírio, era essa: ela não estava adiando o prazer dele.
Estava ensinando o corpo dele a rezar.
E foi aí — exatamente aí, ela sabia o ponto, ela tinha esperado o ponto com a paciência que pregava — que ela montou nele de novo, cravou os olhos nos olhos dele e não desviou mais.
— Olha pra mim. Não fecha o olho. — O ritmo subindo, fundo, sem recuo desta vez, a promessa enfim em rota de cumprimento. — Você foi tão obediente... a noite inteira... esperando a minha voz... — A voz dela mesma já desmanchando nas bordas, o segundo orgasmo dela chegando junto do dele, e ela segurou o comando até o último instante fisicamente possível: — Então escuta ela mandar. Agora. Goza pra mim agora—
Ele obedeceu no segundo exato. Nem antes, nem depois.
E o mundo acabou com a autorização assinada: um desabamento de horas empilhadas, um gozo que começou na nuca e não terminava nunca, ele agarrado nela com as duas mãos, gemendo o nome dela como quem paga uma dívida em voz alta e em parcela única — e ela por cima recebendo tudo, gozando junto, rindo e tremendo ao mesmo tempo, dona absoluta do relógio, da noite e dele.
Muito depois, no escuro, os dois ainda no meio dos escombros da cama, ela puxou o lençol e se encaixou no peito dele, no lugar que já tinha o formato dela.
— Fala a verdade — pediu, num fio de voz já meio dormindo. — Valeu a espera?
Ele demorou a responder. Não por dúvida — por inventário. Havia muita coisa para contar e ele não queria errar o total.
— Pergunta de novo amanhã.
— Por quê?
— Porque amanhã — ele beijou a testa dela, e dava para ouvir o sorriso na voz — eu já vou estar esperando a próxima.
Ela riu no escuro, satisfeita, a aluna aplicada do próprio método — e ainda teve fôlego para a última crueldade do dia:
— Ótimo. Porque a próxima eu vou fazer durar dois dias.
— Dois?!
— E vai ser fora de casa. — Ela bocejou, aconchegando-se, já com a agenda brilhando atrás dos olhos fechados. — Você fica lindo se controlando, lindo... e eu ando querendo te ver fazer isso de terno. Com plateia. — Um último suspiro, quase inaudível: — Dorme. Você vai precisar.

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