Ardilune
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Capa — Salsa, Suor e Silêncio
Ardilune · Contos · Nº 6

Salsa, Suor e Silêncio

— Aqui não se pensa. Aqui se segue. E quem conduz sou eu.

"Se eu ouço salsa, começo a dançar", ela avisou logo nos primeiros dias, quando os dois ainda estavam na fase de trocar manuais de instrução por mensagem. Depois avisou de novo, mais séria, como quem atualiza um seguro: "dançar é um perigo."

E ele, que ainda não conhecia o corpo dela — que conhecia a voz, as risadas, os áudios, mas não o animal inteiro —, respondeu sem saber o tamanho da profecia que estava assinando: "se encostar, pega fogo."

Guardaram a frase os dois, cada um numa gaveta diferente.

No sábado marcado, ela não perguntou se ele sabia dançar. Perguntou se ele confiava nela — que era outra pergunta, muito maior, disfarçada de pequena, como aliás eram todas as perguntas importantes dela: vinham de sandália, saíam de coturno.

— Confio.

— Então veste essa camisa, que hoje eu te levo pro meu mundo. — E, já na porta, com a chave na mão, ela acrescentou a emenda que ligava aquela noite à outra: — Lembra da regra de quinta, do jantar? Hoje vale a contrária. Hoje é proibido soltar.

O salão ficava no segundo andar de um prédio antigo do centro, escada estreita de degraus gastos, e o som chegava antes da porta: percussão, metais, aquele piano matreiro da salsa costurando tudo por baixo, pontual como um alfaiate. Lá dentro o ar era outro — mais denso, mais quente, cheirando a perfume misturado e madeira encerada, o cheiro de todos os sábados daquele lugar acumulados nas tábuas. Casais giravam sob uma luz baixa cor de âmbar. Ninguém olhava para ninguém e todo mundo via tudo.

Ela entrou como quem chega em casa.

Ele viu a transformação em tempo real, do lado de fora dela, como quem assiste a uma revelação de filme: a mulher que ele conhecia — os áudios, as risadas, o cuidado — ganhou outra camada na primeira frase do clave. O quadril achou o tempo da música sem pedir licença ao resto do corpo. Os ombros desceram. O queixo subiu. Ficou mais alta sem crescer um centímetro.

— Regra de hoje — disse ela, puxando-o pela mão até o meio do salão, abrindo caminho entre os casais com a autoridade de quem tem cadeira cativa. — Aqui não se pensa. Aqui se segue. E quem conduz sou eu.

— Achei que na salsa o homem conduzia.

Ela sorriu — o sorriso de quem esperava exatamente essa frase e tinha a resposta pronta há anos —, pegou a mão dele e a encaixou na cintura dela, firme, no lugar exato, nem um centímetro de negociação:

— Na salsa de vocês.

E começou a aula mais perigosa da vida dele.

✦ ✦ ✦

Ela ensinou com o corpo, não com palavras — o método da casa. O passo básico empurrado quadril contra quadril, o tempo da música entrando por osmose, um-dois-três, pausa, cinco-seis-sete. Ele errou. Pisou. Travou no meio da virada como um relógio com areia dentro — e ela ria, aquela risada aberta que virava cabeças no salão inteiro, e recomeçava do início sem nenhuma pressa, porque pressa nunca foi o idioma dela.

Aos poucos, o milagre de todo salão: o corpo dele entendeu o que a cabeça não alcançava. Os quadris acharam conversa. Os pés pararam de pedir desculpa. E quando ele acertou a primeira sequência inteira — básico, virada, volta, pausa —, ela deslizou para mais perto. De encostar.

E ali dentro da música os dois descobriram que a profecia era literal.

Pegava fogo.

A coxa dela entrava entre as dele nas viradas, ficava um tempo a mais do que a coreografia mandava, saía devagar. A mão dele aprendeu as costas dela de cor — a curva úmida onde o vestido terminava, o suor descendo pela coluna como uma assinatura escorrendo. Ela girava e voltava sempre um centímetro mais colada que na volta anterior, uma matemática de aproximação que ele só percebeu tarde demais, o perfume dela agora misturado com sal, o peito subindo e descendo contra o dele nas pausas. Nas quebradas mais lentas, ela cantava baixinho o espanhol da música contra o pescoço dele — e ele sentia a letra na pele antes de ouvir, tradução simultânea por arrepio.

— Você aprende rápido — murmurou ela numa pausa, os lábios a um dedo da orelha dele.

— Professora boa.

— Não. — Ela mordeu de leve o lóbulo, o gesto escondido do salão pelo giro seguinte, contrabando em plena pista. — Aluno faminto.

Dançaram até a camisa dele colar nas costas e o vestido dela virar uma segunda pele. Dançaram até o salão inteiro sumir — os outros casais, a luz âmbar, o mundo — e sobrar só o eixo dos dois corpos girando um ao redor do outro como um sistema binário, cada um preso na gravidade do outro, nenhum disposto a ser o planeta. Em algum momento — nenhum dos dois soube depois dizer qual, e discutiram isso com prazer muitas vezes — a dança parou de ser dança. Os passos continuavam certos. A música continuava mandando. Mas já era outra coisa: um ensaio público e vestido do que ia acontecer despido e a portas fechadas.

Foi ela quem decidiu a hora. No meio de uma música, sem aviso, parou.

Parou de verdade, no meio do compasso, um sacrilégio de dançarina — e olhou para ele com o rosto brilhando de suor, a respiração curta, os olhos dizendo o resto da noite inteiro de uma vez.

Não disse nada. Não precisava. Ele pegou a mão dela e desceram a escada estreita sem uma palavra, deixando a música tocando para os outros.

✦ ✦ ✦

E o silêncio começou ali.

Não foi combinado. Foi acontecendo — e os dois perceberam juntos, no carro, cada um pelo seu lado do banco, que qualquer palavra ia estragar alguma coisa que a música tinha deixado armada, um mecanismo delicado de molas e suor que falar desarmaria. Ela pousou a mão na coxa dele e deixou lá. Ele cobriu a mão dela com a dele e deixou também. Vinte minutos de rua passando na janela, os semáforos pingando cores no para-brisa, os corpos ainda pulsando no tempo da percussão — mudos como dois cúmplices voltando do crime perfeito.

Em casa, no escuro do quarto, o pacto se selou sozinho: sem palavras.

Ele a despiu no andamento da última música — devagar, um-dois-três, pausa —, e ela respondeu abrindo a camisa encharcada dele botão por botão, no mesmo compasso, a coreografia continuando por outros meios. O suor dos dois tinha o mesmo gosto quando as bocas percorreram os pescoços, os ombros, o vão entre os seios dela, a linha do abdômen dele. Nenhum gemido virava frase. Nenhum pedido virava voz. Tudo era dito como no salão: com pressão de mão, com quadril, com a respiração mudando de ritmo — o vocabulário completo que os dois acabavam de descobrir que tinham.

Deitados, ele descobriu que o silêncio afiava tudo. Sem palavras, ele ouvia o resto: o estalo da boca dela na pele dele, o atrito do lençol, o gemido dela preso atrás dos dentes lutando para não virar nome — e perdendo devagar. Quando a língua dele desceu por ela e ela arqueou, a mão dela na cabeça dele conduziu como conduzia na pista — aqui, assim, nesse tempo —, e ele seguiu, aluno aplicado, faminto e aplicado, até ela quebrar o pacto pela primeira vez com um gemido alto que ela mesma abafou com o próprio pulso, rindo muda, os olhos molhados de prazer, flagrada pelo próprio jogo.

Ela o puxou para cima pela nuca. Encaixou. E a última dança da noite foi no ritmo que os dois tinham ensaiado a noite inteira sem saber que ensaiavam: quadril respondendo quadril, um-dois-três, pausa, cinco-seis-sete — e a pausa, sempre a pausa, o segredo da salsa e de todo o resto: os dois parados no fundo um do outro, imóveis, tremendo, esticando o silêncio até doer, até quase quebrar, antes de recomeçar mais devagar. Ele entendeu ali, dentro dela, o que ela tinha tentado ensinar com "aqui não se pensa, aqui se segue". Ela entendeu, agarrada nele, os calcanhares cruzados nas costas dele, que tinha finalmente achado par para as duas pistas.

Gozaram sem palavra nenhuma — ela primeiro, mordendo o ombro dele para não gritar, o grito virando marca; ele junto, o rosto afundado no cabelo úmido dela — e o único som no quarto foi o dos dois fôlegos desencontrados procurando, devagar, com paciência de dançarino, o mesmo compasso de novo.

✦ ✦ ✦

Ficaram um longo tempo calados no escuro, colados, o suor esfriando nos dois ao mesmo tempo, o pacto ainda valendo por inércia.

Foi ele quem quebrou o silêncio, enfim, com a voz rendida de quem assina a derrota em cartório, com firma reconhecida:

— Eu ia dizer uma coisa.

— Shhh. — Ela subiu um dedo até a boca dele, sorrindo no escuro. — Eu sei.

— Sabe?

— Você disse a noite inteira.

Ele riu baixinho, vencido. Ela se aninhou no peito dele, jogou uma perna por cima, tomou posse do território — e ficou um momento em silêncio, mas era um silêncio diferente, de engrenagem girando, e ele já conhecia esse ruído de pensamento dela.

— Sabe o que eu percebi hoje? — disse ela, no escuro. — Eu conduzi você a noite inteira com a mão. Cintura, ombro, um dedo. — Pausa. A voz dela sorriu sozinha. — Semana que vem eu quero tentar uma coisa. Conduzir sem mão nenhuma. Sem sair de casa. Só com a voz.

— Como assim, só com a voz?

— Você vai saber. — Ela bocejou, já indo embora para o sono, e arrematou a noite com a sentença que ele emolduraria: — Dançando você não mente.

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