
"É tão mágico quanto toda essa intensidade", ela disse uma vez, num áudio, a voz baixando como quem entrega um segredo pequeno demais para aguentar peso. "Quando eu estou te olhando nos olhos sem fazer nada. Igual naquele show — teve uma hora que eu estava só te olhando."
Ele guardou. Ele guardava tudo o que ela dizia nesse tom — havia uma prateleira inteira dele reservada para as frases que ela soltava sem perceber o tamanho —, e foi dessa frase, dita para elogiar a calma, que nasceu o jogo mais cruel que os dois já inventaram. Porque é assim que os grandes incêndios começam: alguém elogia uma vela.
A proposta chegou por mensagem, às três da tarde de uma quinta-feira comum, sem nenhum aviso prévio — como tudo o que ela fazia de melhor:
Hoje eu te levo pra jantar. Regra única: proibido encostar. Nem mão, nem pé, nem "sem querer". Quem encostar primeiro, perde.
Ele leu duas vezes. Sentiu o dia inteiro mudar de assunto. Respondeu em dez segundos:
E o que ganha quem ganha?
O perdedor obedece. A noite inteira. O que for.
Ele olhou para o telefone por um longo minuto, medindo a armadilha por todos os lados, com o cuidado de um homem que já tinha caído em várias. Não tinha lado bom. Perder era perder e ganhar era perder com troféu. Era por isso que era irresistível.
Fechado, digitou.
E passou o resto da tarde inútil para o mundo, respondendo e-mails que não leu, olhando um relógio que não andava.
Ela escolheu o restaurante pela iluminação — meia-luz cor de conhaque, velas baixas nas mesas, o tipo de lugar onde a pele de todo mundo fica melhor do que é e a dela ficava melhor do que deveria ser permitido. E se vestiu como quem vai à guerra fingindo que vai à missa: o vestido escuro comportadíssimo na frente, colarinho quase de freira — e criminoso nas costas, o decote traseiro despencando em queda livre até onde a coluna muda de nome. O perfume proibido, dose dupla, um borrifo a mais na nuca por má-fé. Batom de tom vinho, daqueles que não saem por nada — informação técnica que ela pretendia tornar dolorosamente relevante até o fim da noite.
Ele a esperou na porta, e quando ela desceu do carro e caminhou até ele, os dois cometeram o primeiro erro estratégico da noite: olharam-se de cima a baixo ao mesmo tempo, sem nenhum disfarce, com uma gula tão explícita que faria qualquer garçom mudar de calçada. Dois jogadores mostrando as cartas antes da primeira rodada, cada um contando com isso.
— Você vai perder — disse ela, passando por ele sem encostar, deixando exatamente um milímetro de ar entre o ombro dela e o peito dele, um milímetro medido, cruel, habitado.
— Eu sei — respondeu ele, sem se mexer. — Mas vou perder tarde.
A mesa era pequena. O que era pior. Sentaram frente a frente, joelhos a um palmo de distância — um palmo que os dois passariam três horas medindo por dentro —, e o jogo começou de verdade.
Ela atacou primeiro, ainda no aperitivo: comeu a azeitona devagar demais, os olhos presos nos dele do primeiro ao último segundo da operação, e depois lambeu a ponta do próprio polegar com uma displicência que só existe depois de ensaiada em frente ao espelho. Ele recebeu o golpe sem piscar — piscou por dentro, onde ela não via — e devolveu no vinho: girou a taça, provou, e deixou o gole descer com a garganta exposta, lento, aproveitando-se de um fraco confesso que ela tinha pelo pescoço dele. O pomo-de-adão dele subiu e desceu como um argumento.
— Golpe baixo — murmurou ela, a taça parada no ar.
— Aprendi com a professora.
O jantar inteiro foi isso: uma conversa civilizadíssima sobre nada — o filme da lista, a música nova, se o inverno vinha frio — travada por cima de uma guerra silenciosa e escandalosa que nenhum outro cliente do salão percebeu e todos teriam pagado para ver. Ela provou o risoto dele esticando o prato pelo garçom, só para não haver troca direta de louça entre as mãos dos dois, e gemeu baixinho no primeiro garfo — um gemido calibrado, dosado, dela, o gemido que ele conhecia de outro contexto e de nenhum restaurante —, e ele precisou recitar mentalmente a tabela do imposto de renda, alíquota por alíquota, para não derrubar a mesa. Retaliou no vinho seguinte, informando ao sommelier, em voz propositalmente audível, que a senhorita gosta dos vinhos que demoram na boca.
Ela cruzou as pernas com força embaixo da mesa. A toalha se mexeu. Os dois fingiram que não.
Na sobremesa, ela pediu licença e foi ao banheiro. Voltou serena, penteada, nova em folha — sentou, provou uma colher do petit gâteau como se nada no mundo tivesse acontecido, e então empurrou pela toalha da mesa, embrulhado no guardanapo de pano, um pequeno volume de renda preta.
— Guarda pra mim? — pediu, com a voz mais doce e os olhos mais sujos do hemisfério. — Ficou apertado.
Ele olhou para o guardanapo. Olhou para ela. O cérebro dele fez a conta em três etapas: entendeu o que era; entendeu o que significava; entendeu que dali em diante ela estava como estava, a um metro dele, atrás de um vestido cheio de fendas, pelo resto da noite. O restaurante inteiro continuou jantando, alheio ao fato de que naquela mesa um homem acabava de receber uma granada embrulhada em linho.
Ele teve absoluta certeza de que ia perder o jogo nos próximos dez minutos.
— Garçom — chamou, rouco. — A conta.
O carro foi a etapa mais desumana. Vinte minutos de trânsito, os dois olhando fixamente para a frente, as mãos de cada um no próprio colo como dois adolescentes de castigo, o ar-condicionado no máximo perdendo feio para a temperatura interna do veículo. Ela recitava as regras em voz baixa, guerra psicológica em estado puro: proibido encostar... nem no sinal vermelho... nem "foi o câmbio"... E ele dirigia apertando o volante como se o volante tivesse culpa de alguma coisa — e o volante, coitado, era o único ali sendo apertado por alguém.
No elevador, foi ela quem quase caiu.
Ele se encostou na parede oposta, afrouxou o colarinho devagar, um botão, dois, e disse, olhando-a pelo espelho — o olhar guloso em dose máxima, aquele olhar que não tocava e por isso mesmo tocava em tudo, lambendo-a inteira de longe:
— Você está há três horas na minha boca. Só não sabe ainda.
Ela fechou os olhos. Contou até quatro. Os números não ajudaram em nada.
O elevador abriu no andar dele.
A porta do apartamento. A chave que não achava a fechadura. O corredor escuro. E então os dois parados no hall de entrada, a um passo um do outro, ofegantes sem ter corrido, três horas de jogo penduradas no ar entre os corpos — cada um esperando ver quem quebrava primeiro, nenhum dos dois disposto a perder, nenhum dos dois aguentando ganhar. Foi ela quem riu — a risada escandalosa e viva, a de verdade — e ofereceu a única saída honrosa que a noite tinha:
— Empate?
— Empate.
E se atracaram no mesmo décimo de segundo.
Foi contra a parede do hall mesmo — nem quarto, nem cama, nem cerimônia: três horas de fome não cabem em preliminares. Ele a prensou na parede e beijou com a boca inteira, mordendo o batom que não saía e comprovando pessoalmente a especificação do fabricante; ela puxou a camisa dele com as duas mãos e um botão voou para algum lugar do hall de onde nunca mais voltaria. Ele achou as fendas do vestido de memória, sem olhar, e confirmou com um gemido grave o que o guardanapo tinha prometido na sobremesa; ergueu-a pelas coxas, e ela abriu o cinto dele às cegas, com a pressa raivosa de quem cobra uma dívida vencida.
— Olha pra mim — mandou ela, quando ele a encaixou e entrou de uma vez, fundo, os dois gemendo juntos o gemido represado do jantar inteiro, com juros de elevador. — Não fecha o olho. Olha.
E esse foi o requinte final do jogo, a assinatura da noite: transaram olho no olho, escancarados, sem esconder careta nenhuma, sem o álibi do escuro — cada estocada assistida de camarote pelos dois, a versão sem roupa dos olhares da mesa, a azeitona e o vinho e o risoto enfim traduzidos. Ela gozou primeiro, cravando os dedos na nuca dele, gritando de olhos abertos dentro dos olhos dele; ele veio logo atrás, testa na testa dela, dizendo o nome dela como quem finalmente larga no chão um peso que carregou o dia inteiro.
Escorregaram juntos pela parede até o piso do hall, vestido pela metade, calça pelo joelho, rindo feito dois assaltantes contando o dinheiro depois do golpe.
— Empate — repetiu ela depois, ainda no chão, a cabeça no peito dele, o batom intacto e vitorioso. — Sabe o que significa, né?
— Que ninguém obedece ninguém?
— Que os dois obedecem os dois. — Ela levantou o rosto, e ele viu a gula renascer nos olhos dela com uma pontualidade assombrosa. — A noite é longa, lindo. Eu perdi e ganhei ao mesmo tempo.
Ele olhou para o teto do próprio hall — o lustre que nunca tinha assistido a nada parecido — e aceitou o destino com a serenidade dos condenados felizes.
— Sabe qual é a parte mais engraçada? — disse ela, o dedo desenhando no peito dele. — A gente passou a noite inteira proibido de encostar... e sábado tem aquele salão de salsa que você vive prometendo. Lá a regra é a contrária, meu bem. Lá é proibido soltar.
— Revanche no próximo jantar? — tentou ele, ainda no assunto anterior, porque o corpo dele já estava.
— Revanche — disse ela, já subindo nele de novo, o vestido desistindo do cargo — é pra quem perdeu. Eu quero é bis.

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