
Um dia ela avisou, por mensagem, no meio da tarde de uma quarta-feira qualquer: "hoje meu banho vai ser à luz de velas."
Ele respondeu na hora, sem pensar, que era o jeito dele de ser mais sincero: "como eu queria estar junto neste banho."
Ela não disse sim. Ela não disse não. Ela deixou a frase acesa — como quem deixa uma vela queimando num quarto vazio, esperando a casa pegar fogo. E as frases dela eram assim: não apagavam sozinhas. Ele conviveu semanas com aquela chama baixa no canto da memória, e ela sabia. Claro que sabia. Tinha sido ela quem acendeu.
Depois veio a noite do laboratório, o cheiro de látex e gel, e a promessa sonolenta contra o peito dele: banho comprido, só nós dois, nenhuma lâmpada acesa. Ela achava que ia dever esse banho ainda por uns dias.
Ele se adiantou. Pagou a promessa dela por ela — que é a forma mais elegante de cobrar.
Ela chegou exausta. Daquele cansaço específico de fim de dia comprido: o treino, o trânsito, o telefone, o mundo inteiro pedindo um pedaço dela até não sobrar nenhum para ela mesma. Abriu a porta do apartamento dele com a chave que ganhara havia pouco — e que ainda a espantava no bolso, pequena e definitiva, o objeto mais sério que já lhe deram embrulhado em "toma, pra facilitar" — já ensaiando na garganta o lindo, hoje eu só quero deitar.
A frase morreu na entrada.
A sala estava no escuro. E do corredor vinha uma luz que não era de lâmpada — uma luz viva, quente, irregular, que tremia nas paredes como se a casa tivesse aprendido a respirar. Ela largou a bolsa onde estava, no meio do caminho, sem cerimônia de hóspede — a chave no bolso dava esse direito — e seguiu o brilho como se segue uma trilha de migalhas: pelo corredor, até a porta entreaberta do banheiro, que ela empurrou com dois dedos.
Ele tinha comprado as velas uma a uma. Havia pelo menos vinte — na bancada, na beirada da banheira, enfileiradas no chão de canto a canto — e o espelho embaçado de vapor multiplicava cada chama por três, uma congregação inteira de fogos pequenos. A banheira cheia, a espuma alta. E no ar um cheiro de lavanda com alguma coisa mais escura por baixo — âmbar, talvez —, uma nota que ela nunca conseguiu nomear e nunca mais esqueceu: o cheiro daquela noite, arquivado para sempre na prateleira das datas importantes.
Ele estava de pé ao lado da banheira, mangas dobradas até o cotovelo, sorrindo daquele jeito de quem preparou tudo e ensaiou até o silêncio.
— Você falou uma vez — disse ele — que o seu banho ia ser à luz de velas. E eu respondi que queria estar junto. Você nunca respondeu.
Ela encostou no batente da porta. O cansaço do dia inteiro derreteu pelos ombros e escorreu para o ralo antes mesmo da água.
— Estava esperando você merecer.
— E hoje?
— Hoje você vai lavar meu cabelo. — Ela desencostou do batente e entrou na luz. — Aí a gente decide.
Ele a despiu devagar, peça por peça, sem pressa e sem desvio — e isso era o mais escandaloso da cena: as mãos dele não fugiam para os atalhos de sempre, não aproveitavam nenhuma esquina. Desabotoou. Deslizou. Dobrou cada peça e pousou na bancada, com um respeito de sacristão. Ser despida assim, sem segunda intenção à vista, era a maior segunda intenção que ela já tinha testemunhado. Quando ficou nua no meio das velas, dourada, a pele arrepiando de leve no vapor, ele deu um passo atrás.
Só para olhar.
Ela deixou. Ficou parada na luz das chamas, sendo vista — porque já sabia, de outras noites, que ser olhada por ele era um banho antes do banho.
A água estava na temperatura exata da pele com febre. Ela afundou até o queixo e gemeu de puro alívio — aquele gemido doméstico, sem plateia e sem pudor, que ele achava, em segredo, mais bonito do que todos os outros gemidos do repertório: o som dela chegando em casa dentro do próprio corpo.
Ele ajoelhou atrás da banheira, encheu a concha das mãos e começou pelo cabelo.
Molhou devagar, protegendo o rosto dela com a palma, uma calha improvisada de dedos. Espalhou o shampoo — o dela, da marca dela, comprado sem avisar numa prateleira que ele nunca tinha visitado na vida, e esse detalhe a desmontou por dentro mais do que qualquer vela — e massageou o couro cabeludo com os dez dedos, em círculos lentos, da nuca às têmporas, com a paciência de quem não está indo a lugar nenhum. Ela escorregou banheira abaixo, os olhos fechados, desarmada de tudo o que o dia tinha empilhado nela.
— Isso devia ser ilegal — murmurou.
— O quê?
— Isso. Suas mãos. Você sabe o que está fazendo.
— Estou lavando seu cabelo.
— Você sabe o que está fazendo.
Ele sabia. Enxaguou com a concha das mãos, viagem por viagem, e beijou a nuca molhada no intervalo entre duas. Depois desceu a esponja pelos ombros dela, pelo colo, devagar, desenhando espuma nos lugares onde mais tarde pretendia desenhar a língua — um rascunho a sabão do que viria. Contornou os seios sem pressa, sentiu os mamilos endurecerem sob a esponja e seguiu descendo como se não tivesse notado nada.
Ela mordeu o lábio. A paciência dele era a mais deliciosa das crueldades, e os dois sabiam qual dos dois tinha inventado essa escola.
— Entra — disse ela, enfim, puxando o braço dele com a mão molhada. — Chega de me lavar por procuração.
Ele tirou a roupa sob o olhar guloso dela — que não disfarçou nada, nunca disfarçava, apoiada nas bordas da banheira como quem assiste ao espetáculo do próprio camarote, cobrando com os olhos cada botão lento — e entrou na água atrás dela, o peito nas costas dela, as pernas abraçando as dela por fora. A água subiu, pensou no assunto, e não transbordou. Ficaram assim um longo minuto, só respirando juntos, o vapor subindo, as chamas dobrando as sombras dos dois numa parede só — e a banheira acomodou os corpos como se tivesse sido enchida já contando com eles.
Então as mãos dele recomeçaram. Sem esponja.
Sabão nas palmas, ele deslizou pela barriga dela, pelas coxas, pela face interna onde a pele muda de assunto, e ela abriu caminho para ele dentro d'água, a cabeça caindo para trás no ombro dele, a boca entreaberta sem som. Quando os dedos a encontraram — escorregadios de espuma e dela, as duas coisas já indistinguíveis —, o gemido que ela soltou apagou duas velas.
Ele juraria isso para sempre. Duas. As da beirada. A física que explicasse depois.
E o banho virou outra coisa. Ele a tocou devagar, no ritmo das chamas, sem pressa e sem pausa, a boca colada no ouvido dela narrando baixinho tudo o que via — como você fica linda assim, desse jeito, toda entregue, geme pra mim, deixa a água ouvir —, e ela rebolava contra ele em câmera lenta, sentindo-o duro contra as costas, a água ondulando em maré pequena e transbordando aos golinhos, lambendo as velas do chão que sobreviviam por teimosia. Ela gozou a primeira vez assim: na mão dele, dentro d'água, mordendo o braço dele para caber no banheiro, com o espelho embaçado guardando segredo de tudo.
Depois virou de frente, escorregadia, um joelho de cada lado dos quadris dele, e desceu sobre ele devagar — a água fazendo tudo ficar lento, denso, submarino, cada centímetro negociado com a maré. Moveram-se no ritmo que a banheira permitia, que era exatamente o ritmo que a noite pedia: fundo e devagar, testa com testa, trocando o fôlego na distância de um beijo, as mãos dele nos quadris dela sem conduzir nada — só acompanhando, passageiro honrado do movimento dela. As velas tremiam a cada onda. A água batia na borda, marcando o compasso.
— Olha pra mim — pediu ela, quando o sentiu crescer por dentro, o aviso mudo que ela conhecia de cor. — Eu quero ver.
Ele olhou. Ela olhou de volta. E gozaram assim, olho no olho, quase em silêncio, um tremor comprido e partilhado atravessando os dois corpos e a água ao mesmo tempo — e o silêncio que veio depois foi o mais habitado da vida dos dois: cheio de vapor, de respiração desacelerando, de chamas trabalhando.
Ficaram na água até as pontas dos dedos enrugarem e as primeiras velas se apagarem sozinhas, aposentadas com honra, o serviço cumprido.
Ele a enrolou na toalha grande — a felpuda, a que ela sempre elogiava — e sentou-a na beirada da cama. E então fez a última parte do ritual, a parte que ela não tinha pedido e que por isso mesmo valia dobrado: pegou os cremes dela na prateleira, um por um, na ordem certa — tinha reparado na ordem; ele reparava em tudo — e espalhou devagar pelas pernas dela, pelos braços, pelas costas, selando cada região com um beijo no ombro mais próximo.
— Você observou até a ordem dos cremes — disse ela, num fio de voz, equilibrada entre o riso e outra coisa bem maior que preferiu não nomear com o cabelo molhado.
— Eu observo tudo que é importante.
Ela deitou puxando-o junto, cheirosa, morna, desfeita, e antes de apagar sussurrou contra o pescoço dele:
— Da próxima vez, quem compra as velas sou eu. — Pausa. Um sorriso já sonolento no escuro. — E quem escolhe onde elas ficam... também. E não vai ser aqui, aviso logo. Vela fica linda em lugar onde não pode.
Ele ainda ficou um tempo acordado, olhando pela porta a última chama tremer no banheiro, fazendo o inventário da noite — e entendendo devagar, sem nenhuma pressa de se salvar, que tinha acabado de perder de novo, deliciosamente, o controle da própria casa. E que o território dela, pela primeira vez, talvez não coubesse mais dentro de casa nenhuma.
— Você já tá escolhendo o lugar, né? — sussurrou ele no escuro.
Ela respondeu do fundo do sono, com a pontualidade de quem nunca dorme de verdade:
— Desde a segunda vela, lindo.

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