Ardilune
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Capa — De Quatro Pra Ela
Ardilune · Contos · Nº 3

De Quatro Pra Ela

— De quatro. Pra mim.

"É totalmente novo para mim... eu nem sei exatamente o que eu vou sentir. Mas estou com muita curiosidade de ver."

Ela disse isso num áudio, com a voz de quem estuda um mapa antes da viagem — o dedo parado em cima de um país onde nunca esteve. Ele ouviu três vezes. Na primeira, sorriu. Na segunda, engoliu em seco. Na terceira, já não estava ouvindo as palavras: estava ouvindo a curiosidade dela trabalhar, aquele motor baixo e constante que, ele sabia por experiência, não desligava nunca antes de chegar ao destino.

Respondeu com quatro palavras: então vamos descobrir juntos.

E ela tinha avisado, no fim da última noite, com os dedos descendo pela coluna dele degrau por degrau: joelho foi só a metade da lição. Você tem quatro apoios. Ele fingiu que dormia. O corpo dele passou a semana inteira sem fingir nada.

A caixa ficou três dias em cima da cômoda. Fechada.

Não era timidez — era estratégia. Ela a deixou ali de propósito, bem no campo de visão dele, na rota obrigatória entre a cama e o banheiro, para que ele dormisse e acordasse olhando para aquilo. Para que a imaginação dele fizesse metade do trabalho antes de ela encostar um dedo. Três dias de papelão mudo em cima de um móvel, e o papelão gritava. Ela tinha aprendido essa técnica com ele, aliás, e não via nenhum problema em usar a arma do professor contra o professor: a espera é o começo do sexo, não o atraso dele.

Na quarta noite, ela saiu do banho de cabelo úmido, o roupão dele no corpo — o roupão dele, mais um detalhe que não era acaso, porque nada naquela mulher era acaso —, atravessou o quarto, e disse, casual como quem comenta a novela:

— Hoje.

O estômago dele caiu dois andares. Ela viu a queda acontecer no rosto dele, andar por andar.

E adorou ver.

✦ ✦ ✦

Tinham comprado juntos, semanas antes, naquela tarde na galeria em que fingiram não se conhecer entre as prateleiras — o teatro completo: ela de óculos escuros, pedindo sugestão à vendedora com a maior cara de paisagem do hemisfério; ele três corredores adiante, de costas, suando frio de tesão diante de uma prateleira de velas aromáticas que não enxergava. Escolheram rindo pelo WhatsApp, cada um do seu canto da loja, os polegares correndo, os rostos sérios. O arnês preto. O menor tamanho.

pra começar — ela tinha digitado, com aquele emoji de santa que não enganava ninguém, muito menos a santa.

Agora a caixa estava aberta na cama, e ela estudava o conteúdo com uma concentração que ele conhecia de outras batalhas dela — a testa levemente franzida, o mundo em volta desligado. Pegou. Pesou na mão, como quem se apresenta a uma ferramenta nova. E anunciou, séria:

— Eu li seu guia inteiro, viu? Duas vezes. Fiz até anotação.

— Anotação?

— Margem esquerda: "devagar". — Ela ergueu um dedo, professoral. — Margem direita: "ele geme diferente quando é fundo". — Ergueu os olhos, e um sorriso torto atravessou toda a seriedade científica. — Essa segunda fui eu que acrescentei. Hipótese. Hoje a gente testa. Você é a cobaia, lembra? Você aceitou.

Ele tinha aceitado. Num áudio às duas da manhã, com a voz rouca de quem confessa mais do que combina — porque era isso que os áudios de madrugada deles eram: o confessionário do casal, o lugar onde as vontades saíam sem escolta. E ela tinha respondido com a pergunta que agora pairava sobre a cama inteira, pendurada no ar junto com o cheiro do banho dela:

você está doidinho pra ser dominado, né? Safado.

Ela desapareceu no banheiro com a caixa. Ele ficou na cama contando o próprio pulso.

Voltou transformada — e a transformação não estava na lingerie preta, que a essa altura já era covardia dela usar, e sim no detalhe que quase o desmontou de ternura no meio do tesão: as luvas. Pretas, finas, de látex, estalando no pulso uma por vez, dois estalos pequenos que reorganizaram a hierarquia do quarto. Ela tinha unha comprida — e tinha se preocupado. Tinha pesquisado, perguntado, lido o guia dele com marca-texto, comprado luvas do tamanho certo. O cuidado era o fetiche secreto dos dois, e nenhum dos dois admitia: por baixo de todos os jogos, o que os deixava de joelhos era ser levado a sério.

— Deita — disse ela. — De costas primeiro. Eu quero te olhar.

Ela sentou sobre as coxas dele e começou sem pressa nenhuma, do jeito que os dois tinham elevado a religião: beijou a boca, demorou no pescoço, desceu pelo peito com a boca e subiu com as unhas por cima do látex — e a sensação era nova e estranha, uma pele lisa demais, neutra demais, que fazia o corpo dele prestar atenção dobrada, procurando a mão dela por baixo da luva. Quando essa mão desceu de vez e o encontrou duro, ela riu baixinho contra a orelha dele:

— Nervoso?

— Muito.

— Que delícia. — E era sincero: ela mordeu o ombro dele de puro apetite, um aperto de dentes que não pedia desculpa. — Eu também. A gente combina.

O gel era o mesmo da gaveta. O ritual era o que ele sempre fez nela — e essa era a perversidade perfeita do plano, a elegância que ele só entendeu com o rosto na fronha: ela não inventou nada. Copiou. Dedo por dedo, pausa por pausa, palavra por palavra. Virou-o de bruços com um empurrão suave no ombro, beijou a nuca, desceu a língua pela coluna dele centímetro a centímetro — cada vértebra um degrau, a escada inteira descida sem pular nenhum — até ele tremer, e então sussurrou na pele dele as frases que eram dele, patrimônio dele, devolvidas agora com juros e correção:

— Relaxa pra mim. Isso... Deixa eu cuidar de você.

O primeiro dedo enluvado entrou devagar, com gel demais, paciência demais — a paciência dela era um instrumento afiado —, e ele, que passou a vida no comando de tudo, no volante de tudo, gemeu na fronha um gemido que não reconheceu como seu. Um som mais antigo que o orgulho.

Ela parou. Esperou. Respira.

Segundo dedo. O corpo dele foi abrindo caminho para ela como ela sempre abriu para ele, e cada resistência vencida era um pacto novo assinado entre os dois, sem cartório, com testemunha nenhuma além do abajur.

— Agora — disse ela.

E a voz já não era a da cientista. Era grossa, escura, dois tons abaixo — a curiosidade tinha virado fome no meio do caminho.

— De quatro. Pra mim.

Ele empinou.

Quatro apoios. A lição inteira.

✦ ✦ ✦

E ela ficou um segundo parada, ajoelhada atrás dele, o arnês afivelado na cintura, olhando aquele homem grande e orgulhoso oferecido na cama dela — os ombros largos rebaixados, as mãos agarradas no lençol, a nuca entregue — e entendeu, num golpe só, a coisa que os áudios dele nunca tinham conseguido explicar por mais que tentassem: o tesão de ver o outro entregue. Não era sobre o que ela ia sentir entre as pernas. Era isto. Este poder de vertigem, este mapa novo aberto na cama, este homem que mandava no mundo esperando ordem dela. Ficou encharcada sem ninguém ter encostado nela — o corpo dela confirmando a teoria antes do experimento começar.

— Empina mais — mandou, e a palavra dele na boca dela estalou no quarto como chicote. — Assim. Que delícia.

Ela encostou. Alinhou. E foi entrando do jeito que o guia mandava e que o corpo dela já sabia sem guia nenhum: devagar, firme, sem recuar — a regra de ouro que ele mesmo tinha escrito na margem esquerda. Ele gemeu fundo, agarrado no lençol, e o gemido confirmou a hipótese da margem direita em primeira audição. Ela segurou o quadril dele com as duas mãos enluvadas e foi até o fim, e então se deitou sobre ele, colada, o peito dela nas costas dele, a boca no ouvido dele:

— Olha só você — sussurrou, ondulando devagar, cada palavra no ritmo de uma onda. — Todo meu. Dando pra mim.

— Selene...

— Fala.

— Não para.

Ela não parou. Encontrou o ritmo como encontrava na dança — porque era isso, no fim das contas: a salsa mais escandalosa da vida dos dois, ela conduzindo, ele seguindo, os quadris conversando na língua que o casal falava melhor do que qualquer português. Quando ela acelerou, ele empurrou de volta contra ela, pedindo mais sem gastar palavra, e ela viu a cena de cima — ela dentro dele, ele desmanchado embaixo — e gemeu mais alto que ele, vencida pela própria vitória.

— Eu vou gozar assim — disse, espantada consigo mesma, a fricção do arnês e o poder dividindo o serviço em partes iguais. — Sem nem me tocar. Você acredita?

— Goza — implorou ele, a voz saindo pela metade. — Goza comigo.

Ela desceu a mão enluvada, encontrou-o duro e pulsando, e bombeou no mesmo compasso em que metia — e foi assim que os dois desabaram: ele primeiro, gritando na fronha, apertando-a dentro dele; ela meio segundo depois, cravada nele até o fim, tremendo, rindo e gemendo ao mesmo tempo, incrédula do próprio corpo, cidadã recém-chegada do país do mapa.

✦ ✦ ✦

Ficaram desmontados um sobre o outro um longo tempo, a respiração dos dois voltando de longe, o quarto cheirando a látex, gel e suor — o perfume industrial e humano da ciência bem feita.

— E aí? — perguntou ele, quando a voz voltou ao posto. — Hipótese confirmada?

Ela ergueu a cabeça do meio das costas dele, descabelada, os olhos ainda meio tontos:

— Qual delas?

— A da margem direita.

Ela riu — e tirou as luvas com dois estalos solenes, cirurgiã encerrando o plantão com a paciente taxa de sucesso de cem por cento:

— Confirmada. Você geme diferente quando é fundo. — Jogou as luvas dentro da caixa aberta e aninhou-se no peito dele. — Vou precisar de mais amostras, claro. Ciência é repetição.

Ele puxou o lençol sobre os dois. O cheiro de látex subiu junto.

— A gente tá cheirando a laboratório — murmurou.

— Amanhã eu resolvo. — Ela bocejou contra o peito dele, e ele sentiu, mais do que viu, a agenda acendendo nos olhos dela, três volumes à frente, como sempre. — Banho. Comprido. Só nós dois e nenhuma lâmpada acesa... eu ando querendo te ver à luz de vela.

— Quantas amostras? — insistiu ele, voltando ao assunto que interessava ao corpo dele.

Ela respondeu já quase dormindo, com a última crueldade doce da noite:

— Empina que eu te conto.

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