
"A Vera cobrou caro pela visita... e me deu uma ideia."
Na segunda-feira de manhã, presa na geladeira pelo ímã de churrascaria que sobrevivia ali desde antes da série começar, havia uma folha plastificada — plastificada, o que significava papelaria, o que significava premeditação, o que significava mês longo pela frente.
*TABELA DE EMOLUMENTOS — vigência: 30 dias — preços em reais*
Beijo de boca (até 10 segundos) ..... 10,00
Beijo de boca (dos outros) ..... 25,00
Assistir a dona se trocar ..... 25,00
Mão por dentro da blusa (por minuto) ..... 15,00
Oral NELA (privilégio, não serviço) ..... 40,00
Noite completa ..... 200,00
Gozo autorizado ..... preço sob consulta, conforme demanda
Reincidência de olhar bobo apaixonado ..... cortesia da casa
Formas de pagamento: dinheiro da mesada, serviço voluntário (câmbio fixado pela gerência) e joelhos (sempre aceitos). Crédito: disponível, juros compostos, cobrados em espécie. A tabela sofre reajuste semanal por decisão monetária unilateral.
Ass.: o Banco Central da casa.
Ao lado da tabela, pendurado no mesmo ímã, um envelope pardo com o nome dele e, dentro, a mesada: o dinheiro-de-lazer do mês dele — confiscado na cláusula um de um termo assinado no domingo à noite, quando ele ainda estava bêbado de sentença e reparação — devolvido em notas miúdas e trocadas, contadas, ele apostaria, com o maior prazer contábil da história daquela casa.
— Selene. — Ele ergueu o envelope na direção dela, que tomava café com a serenidade de quem lançou uma moeda nacional antes das oito da manhã. — Isso aqui não dá nem metade do mês.
— Eu sei. — Ela virou a página do celular sem erguer os olhos. — Escassez, meu bem, é o que dá valor às coisas. Pergunta pra qualquer banco central... — e aí ergueu os olhos, e neles morava o mês inteiro planejado: — ...ou pergunta pro seu bolso, lá pelo dia vinte.
A primeira semana foi de consumidor novo: entusiasmada e irresponsável. Ele pagou dez reais por um beijo na terça de manhã e achou barato; pagou vinte e cinco para assistir ela se trocar na quarta — ela cobrou adiantado e caprichou na entrega, um espetáculo de alça e calma que valia o dobro, e ele disse isso, e ela anotou o elogio "pra fins de reajuste". Na sexta, quando ele veio com quarenta reais amassados pedir o privilégio da tabela, ela recebeu as notas, conferiu uma por uma contra a luz — a pantomima completa — e se deitou na cama como uma cliente rica: "pode começar. E capricha, que eu pago caro... quer dizer. VOCÊ paga."
Na segunda semana veio o reajuste — beijo a doze, troca de roupa a trinta, "pressão inflacionária", explicou o Banco Central passando manteiga na torrada — e com ele a matemática cruel: a mesada não fechava. Ele começou a fazer o que todo devedor faz: contas de padaria no chuveiro, cortes de gasto (beijou menos na boca e mais na testa, que era de graça — ela notou e reajustou a testa), e o câmbio de serviço: lavou o carro dela por cinquenta, massagem nos pés dela valia vinte — "quinze. Você gosta demais de fazer, perde valor de mercado" —, e uma tarde inteira de faxina a quatro mãos rendeu oitenta e um vale-noite-completa que ele guardou na carteira como um homem guarda a última bala.
E havia a assimetria, claro, a cláusula não escrita que fazia o jogo ser dela: quando ela queria, não custava nada — ela o atacava no corredor, o usava no sofá, gozava duas vezes e ia fazer chá — mas se ele respondesse com entusiasmo além do contratado, ela parava, apontava: "isso que você tá fazendo agora tem nome na tabela". Desejar era de graça só para ela. A casa tinha virado a economia perfeita: ele, pobre e faminto; ela, dona da moeda, da mercadoria e da fome.
No dia vinte e seis, aconteceu o inevitável macroeconômico: ele quebrou.
Saldo: três reais e uma bala de hortelã. O vale-noite-completa, gasto no dia vinte e dois numa noite que valeu cada centavo e o deixou em recessão técnica. E o desejo — o desejo em dia vinte e seis de um mês desses, com uma mulher dessas circulando pela casa de shorts, cobrando por existir — o desejo estava em pleno emprego, aquecido, insustentável.
Ele a encontrou na mesa da cozinha, à noite, e pousou diante dela os três reais e a bala de hortelã. Ela olhou o espólio. Olhou para ele. Não riu — o que foi pior.
— Falência — constatou o Banco Central, guardando a bala no bolso ("entrada"). — E o senhor veio pedir o quê, exatamente?
— Crédito.
— Crédito. — Ela repetiu a palavra devagar, degustando o poder de cada sílaba. Levantou, deu a volta na mesa, e parou atrás dele, as mãos nos ombros dele, a boca na orelha: — Crédito nessa casa tem juros compostos, meu bem. E juros compostos... — as mãos dela desceram pelo peito dele, avaliando a garantia — ...se pagam em espécie. A assinatura é agora e a primeira parcela também. Aceita?
— Aceito.
— Claro que aceita. — Ela beijou a nuca do devedor e decretou, com a doçura dos grandes credores: — Ninguém nunca leu o contrato com o pau duro.
A noite da quitação foi a mais rentável da história da casa.
Ela cobrou os juros em serviço integral e ordem dela: começou de joelhos — "pagamento sempre aceito" —, a boca dele trabalhando nela na cadeira da cozinha mesmo, ela contando o serviço em voz alta como quem confere caixa ("isso quita o beijo de quarta... isso os doze da terça... continua, que a semana foi longa"), dois orgasmos dela lançados no livro-razão. Subiu para o quarto com o devedor de guia — a coleira de aço saindo da gaveta para a noite de execução — e o usou nas posições do acervo com a tabela na cabeça e a cabeça em chamas: cavalgou-o cobrando ("cada minuto disso aqui você me deve DOIS"), parou-o na borda três vezes ("gozo é item sob consulta e eu ainda não fui consultada"), e no fim, com ele em frangalhos de dívida e tesão, sentou-se sobre ele, segurou o rosto do falido com as duas mãos e fez a consulta:
— O item final. Gozo autorizado, preço sob demanda. E a demanda, meu amor, tá altíssima. — Ela desceu devagar sobre ele, tomando-o inteiro, os dois gemendo o juro e o principal. — Preço de hoje: você vai gozar me olhando, dizendo "obrigado" três vezes... e devendo pra sempre. Fechado?
— Fechado. Obrigado.
— Adiantou a primeira. Que devedor exemplar. — E cavalgou a quitação até os dois desabarem juntos, ele gozando com o obrigado, obrigado saindo em espasmo, ela recebendo tudo com o riso escandaloso de quem fecha o balanço no azul — credora, cobradora e caixa, tudo na mesma mulher desfeita e vitoriosa por cima do patrimônio.
No dia trinta, ela convocou a assembleia de encerramento na mesa da cozinha: a tabela plastificada, o livro-caixa (um caderninho de mercado com a contabilidade em letra dela), e o cofre — uma lata antiga de biscoito onde o dinheiro do mês tinha dormido.
— Balanço. — Ela abriu a lata com pompa. — Receita do mês: quatrocentos e trinta e sete reais. Mais três... — ela pescou do bolso — ...e uma bala de hortelã, executados de um devedor em recuperação. Total: quatrocentos e quarenta. — Ela empurrou a lata para o meio da mesa: — Adivinha em que o Banco Central investiu o lucro.
— Em você?
— Em nós, capitalista errado. — Ela tirou de baixo da mesa uma caixa embrulhada — papel dourado, laço de cetim, o embrulho inconfundível das vésperas — e a pousou fechada diante dele. — O caixa do teu desejo comprou o próximo volume. Não abre. Sábado.
Ele olhou a caixa fechada, o embrulho dourado devolvendo a luz da cozinha, e fez a única pergunta que um homem daquela casa aprendia a não fazer e fazia sempre:
— Me dá uma dica, pelo menos.
— Dou duas. — Ela recolheu a tabela da geladeira, guardou-a no caderno preto — que a essa altura fechava com elástico esticado, gordo de um ano de história — e bateu de leve na capa, duas vezes, como quem acorda um bicho de estimação: — Primeira dica: o presente não é a caixa. É isto aqui. Tá chegando a hora, meu amor. Quarenta e três volumes... e você nunca leu o livro inteiro. — Ela levantou, beijou a testa do sócio falido, e deu a segunda dica da porta da cozinha, apagando a luz: — Segunda dica: sábado, você vai precisar muito... muito... dos seus joelhos.

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