Ardilune
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Capa — A Intrusa
Ardilune · Contos · Nº 41

A Intrusa

— Entre o dia dez e o dia trinta. Alguma noite. Qualquer noite.

"E quando acontecer... você vai jurar que não me conhece."

Ele leu o termo três vezes, conforme instruído, e assinou com a mão menos firme dos quarenta volumes.

*TERMO DE INVASÃO CONSENTIDA — ler três vezes*
Entre o dia 10 e o dia 30 deste mês, numa noite que você não escolhe, alguém vai estar dentro da casa quando você chegar. Esse alguém não sou eu — pra todos os efeitos da cena, você nunca viu essa mulher. Ela vai te render, te amarrar e te usar. Sem carinho, sem nomes, sem nada do que é nosso. Você pode resistir de mentira — ela gosta. Você não pode: chamar meu nome, acender luz nenhuma, tocar nela sem ordem.
O que desfaz tudo, a qualquer segundo, sem pergunta: AMARELO (pausa tudo), TRÊS TOQUES em qualquer superfície (acaba tudo, luz acesa, viro eu de novo na hora). E quando a cena terminar de verdade, você vai ouvir uma palavra — "volta" — e aí acabou, e sou eu, e é colo.
Assina só se o teu corpo topar junto. Cabeça mente, corpo não.
— J.

Assinou. E naquela mesma noite, pendurando a chave no gancho da entrada, percebeu o tamanho do que tinha comprado: vinte noites possíveis. Vinte chegadas em casa. Vinte vezes girar a fechadura sem saber o que havia do outro lado dela.

✦ ✦ ✦

Os primeiros dias foram quase cômicos: ele entrava em casa como um esquadrão de um homem só, acendendo tudo, conferindo atrás das portas, e encontrava a normalidade mais deslavada — ela na cozinha mexendo um molho, "oi amor, compra pão amanhã?" —, e a normalidade era a pior parte, porque ela atuava a vida civil com a perfeição de quem tem uma segunda vida guardada no armário, passada a ferro.

No dia quatorze, o falso alarme: um vulto na sala às onze da noite — o coração dele foi à boca e voltou — e era o casaco dela pendurado na cadeira com uma sombra colaboracionista. Ela riu por três dias. No dia dezessete, ele acordou às quatro da manhã com um barulho e ficou vinte minutos sentado na cama, ouvindo a casa respirar, e a casa não devolveu nada além do próprio silêncio debochado. Ele passou a dormir mal de um jeito que o excitava e o envergonhava em proporções iguais — a paranoia como preliminar mais longa da série, vinte dias de pele em prontidão, cada esquina de corredor um talvez.

E ela, os vinte dias inteiros, impecável: nem um olhar de canto, nem um sorriso fora de hora. No dia vinte e um ele quase pediu, por esgotamento, que fosse logo — e não pediu, porque pedir estragava, e porque no fundo, bem no fundo, o esgotamento era o produto, e ele já morava naquela casa há tempo suficiente para saber com quem tinha assinado.

No dia vinte e três, uma quinta-feira de chuva fina, ele girou a fechadura às 21h40 — e o interruptor da entrada clicou no vazio. Sem luz. Disjuntor. E o ar da casa cheirava errado: um perfume que nunca tinha pisado ali, denso, estrangeiro, de âmbar escuro.

✦ ✦ ✦

— Fecha a porta. — A voz veio da sala escura: meio tom abaixo da voz que ele conhecia melhor que a própria, arrastada, com um sotaque leve de lugar nenhum. — Devagar. E não tenta o interruptor de novo, que eu levei os fusíveis... — um riso curto, desconhecido, no escuro: — ...e a noite.

O corpo dele reagiu em três camadas simultâneas: o susto verdadeiro, animal, dos pelos do braço; a certeza racional de quem era — era ela, era ela, claro que era ela —; e uma terceira coisa por baixo das duas, que não era susto nem certeza, e que endureceu contra a própria vontade no escuro do corredor. Cabeça mente, corpo não. O termo sabia das coisas.

— Cadeira da cozinha. Senta. Mãos pra trás. — A silhueta dela cruzou a réstia de luz do poste que entrava pela fresta da cortina: peruca escura e curta, máscara cobrindo metade do rosto, luvas até o cotovelo, um vestido que a Selene não tinha. Fragmentos. Nunca a figura inteira — ela se movia pelo escuro como quem o tinha ensaiado com planta baixa na mão. — Então você é o famoso. — A corda macia — a corda da Sessão, notou o resto racional dele, o único objeto da casa em cena, o cordão umbilical escondido — laçou os pulsos dele com nós de quem treinou. — Ela fala de você, sabia? Nos lugares que mulheres falam. — O hálito dela chegou na orelha dele, quente, com hortelã que a Selene não usava: — Exagerou.

✦ ✦ ✦

A intrusa o usou como se ele fosse mobília de uma casa roubada.

Abriu a camisa dele sem desabotoar — os botões da série tinham vida curta — e o examinou com as luvas no escuro, comentando como quem avalia o que veio buscar: "entendo o estardalhaço... é, tem material... desperdiçado com ela, óbvio." Cada deboche sobre a "namorada" era um fósforo numa gasolina esquisita — ele amarrado, defendendo a honra da mulher que o amarrava: "não fala dela", rosnou, e a intrusa riu o riso desconhecido e sentou no colo dele por cima da calça, o vestido estranho subindo, o perfume estrangeiro em volta: "olha o cachorro fiel... ela te treinou bem. Pena que hoje quem segura a guia sou eu."

Ela o levou à borda três vezes por cima da roupa e por dentro dela, com uma técnica que era da Selene e não era — os mesmos mapas, outra caligrafia, tudo deliberadamente meio tom fora, e o corpo dele no escuro sem saber que idioma gemer. E no meio da terceira subida, sem aviso, ela parou tudo. A voz que veio no escuro, por um instante, foi a de casa:

— Mostra os três toques. — Ele bateu, três vezes, no braço da cadeira. — De novo. — Bateu. — Boa. — E o meio tom desceu de volta, a intrusa reassumindo o turno: — Agora esquece que eles existem... que a noite é minha.

Ela tirou a própria calcinha no escuro, montou nele amarrado e o tomou para dentro de uma vez — e o resto foi assalto: a intrusa cavalgando um homem atado na cadeira da cozinha dele, as luvas cravadas nos ombros dele, o deboche no ouvido — tá sentindo? isso é roubo... você tá sendo roubado, e duro desse jeito, que vergonha... o que a tua namorada diria? — e ele respondeu a única coisa que sobrava, entre os dentes, no escuro: ela ia mandar você terminar o serviço — e a intrusa riu com uma nota do riso escandaloso de casa escapando dentro do riso estrangeiro, o único vazamento da noite, engolido no segundo seguinte pelo galope.

Ele gozou roubado — amarrado, sem alvará, sem escolha, a intrusa apertando por dentro e ordenando me dá, isso é meu agora, roubado também — e ela gozou logo atrás, muda de repente, o rosto mascarado enterrado no pescoço dele, e ele sentiu na pele, no escuro, o tremor exato que conhecia de quarenta volumes: a assinatura que nenhuma peruca cobria.

✦ ✦ ✦

Silêncio comprido. A chuva fininha na janela. O coração dos dois desacelerando em dueto.

Volta — disse ela.

E o mundo religou: os passos dela até o quadro de luz, o tranco do disjuntor, a claridade desabando na cozinha — e era ela, a Selene, de peruca torta e máscara na testa, os olhos já lavados de personagem, correndo para ele com a tesourinha de pontas redondas que estava, o tempo todo, no bolso do vestido estranho. Cortou a corda em quatro movimentos, esfregou os pulsos dele, sentou no colo dele de frente — o mesmo colo, outro século — e o abraçou apertado, o rosto no pescoço dele, o perfume estrangeiro já morrendo por baixo do calor dela de sempre.

— Fala comigo — pediu, no tom da lanterna. — Inteiro?

— Inteiro. — Ele testou a voz, achou-a rouca e verdadeira. — Assustado umas três vezes. Duro as vinte e três noites. Roubado com sucesso. — Ele procurou o rosto dela, e a pergunta saiu séria no meio do riso: — Onde você esteve esses vinte dias, Selene? Você mexia o molho e me perguntava do pão.

— Eu tava aqui. — Ela beijou o pescoço dele, e a resposta veio com a franqueza fundadora da casa: — Mexendo o molho... e decorando a planta baixa no escuro toda madrugada, depois que você dormia. A intrusa treinou muito, meu amor. Ela é dedicada. — Pausa. O sorriso mudou de série. — Aliás. Ela deixou uma coisa.

Ela esticou o braço até a mesa e trouxe um papelzinho dobrado, que ele abriu com os pulsos ainda listrados de corda: uma letra inclinada, estrangeira, que a Selene jamais usaria — "Obrigada pela hospitalidade. Ele nega, mas gostou. Volto quando a namorada viajar. — V."

— "V." — leu ele, em voz alta. — Quem é V.?

— Eu que pergunto! — Ela arrancou o bilhete da mão dele com uma indignação teatral de derrubar plateia, já a caminho do banho, a peruca voando para o sofá. — Uma mulher entra na MINHA casa, usa o MEU homem, e ainda marca retorno?! — Na porta do corredor, ela parou, olhou por cima do ombro, e a Rainha, a intrusa e a autora sorriram juntas pela primeira vez: — Pois ela que venha. Eu viajo mês que vem... e eu quero ver de perto a cara de pau dessa vagabunda.

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