Ardilune
☾ 7 min de leitura
Capa — A Boneca
Ardilune · Contos · Nº 37

A Boneca

— Ela é linda, é obediente, e ainda não sabe que existe.

"Dorme, meu amor. Ela chega numa caixa."

A caixa chegou numa quinta, cor-de-rosa de um jeito agressivo, com um laço de cetim que nenhuma transportadora do mundo amarra — ela tinha interceptado a entrega na portaria e feito o laço ela mesma, no elevador, com o capricho de quem embrulha uma bomba para presente de aniversário.

— Pra você não — corrigiu ela, quando ele estendeu a mão. — Pra ela. — E pousou a caixa na cama do quarto de hóspedes, que naquela casa nunca hospedou ninguém e agora, enfim, teria hóspede. — Sábado, sete da noite, você entra nesse quarto sendo você. Quem sai... sou eu que decido.

Ele espiou dentro da caixa na sexta, sozinho, o coração aos pulos de um jeito que não sabia nomear — e encontrou, entre papéis de seda, o enxoval completo de uma mulher que tinha exatamente as medidas dele: lingerie de renda vinho, meia 7/8 com renda na coxa, uma camisola de cetim, um vidrinho de esmalte, um batom novo... e por cima de tudo, um cartãozinho com a letra dela: "Bisbilhoteiro. Ela vai ficar sabendo."

✦ ✦ ✦

No sábado às sete, o quarto de hóspedes tinha virado camarim: a penteadeira improvisada com o espelho grande apoiado na cômoda, luz quente, os produtos dela enfileirados — e uma cadeira no centro, onde ela o sentou de roupão depois do banho que ela mesma supervisionou, com esfoliante e creme "porque boneca nova tem pele de boneca nova".

E então ela o montou, peça por peça, com uma concentração de restauradora diante de uma tela antiga — e a montagem, ele entenderia depois, era o próprio jogo, não o prefácio dele.

A calcinha de renda primeiro, guiada pelas pernas dele devagar, ajeitada com dois dedos e um comentário técnico ("aperta? Tem que apertar um pouquinho. Renda que não marca é renda que não trabalha"). As meias 7/8 desenroladas centímetro a centímetro, as mãos dela alisando a subida, e ele descobrindo com um arrepio idiota que perna de homem dentro de meia de renda vira outra perna. A camisola de cetim despejada por cima da cabeça, fria como um mergulho. Depois a cadeira, o rosto: ela segurou o queixo dele com a autoridade de sempre e trabalhou em silêncio — base leve, o lápis nos olhos ("olha pra cima. Não pisca. Confia"), rímel, blush — e por fim o batom, aplicado devagar, com ela mordendo o próprio lábio de concentração, o gesto mais íntimo dos trinta e sete volumes inteiros.

— Pronto — disse ela, recuando um passo, e a voz saiu meio rouca. — Falta só uma coisa. — Ela apanhou da caixa o laço de cetim rosa e o prendeu no cabelo dele, de lado, arrumando com carinho de madrinha. — Nome. Boneca sem nome é manequim. — Ela girou a cadeira de frente para o espelho grande: — Abre os olhos e conhece a Bibi.

✦ ✦ ✦

Ele abriu os olhos e o mundo deu o nó mais estranho da série inteira.

No espelho havia uma figura absurda e — essa era a vertigem — bonita: os ombros largos dele sob a alça fina, a renda vinho, a boca pintada, os olhos enormes de lápis, o laço. Não era uma mulher; não era mais só ele; era a Bibi, uma criatura recém-nascida de sete minutos, e o corpo dele respondeu diante do espelho da maneira mais inadministrável possível — a renda da calcinha repuxando, evidente, a boneca excitada com a própria existência recém-inaugurada.

Olha ela — sussurrou a dona, atrás da cadeira, o queixo apoiado no ombro da criação, os olhos dos dois se encontrando no espelho. — Sete minutos de vida e já tá assim. — A mão dela desceu pela frente da camisola, apertou a evidência por cima da renda, e a Bibi gemeu o primeiro gemido — mais agudo que o dele, sem ninguém pedir, e os dois notaram, e nenhum dos dois comentou, porque comentar estragaria o milagre. — Bem-vinda, Bibi. Regras da casa: boneca fala baixinho, obedece rapidinho... e não goza na calcinha nova. Essa renda é minha.

✦ ✦ ✦

A noite da Bibi foi uma educação completa, do primário ao pós.

Serviu como dama de companhia: taça de vinho trazida com as duas mãos, almofada ajeitada, o esmalte — a dona esticou os pés no sofá e a Bibi pintou as unhas dela de vinho, a língua entre os dentes, a mão mais firme do que o orgulho dele gostaria, enquanto a dona comentava a novela da vida alheia como se conversa entre amigas: "e aí ele disse que ia mudar, Bibi, acredita? Homem, né, amiga... ainda bem que a gente tem uma à outra." A Bibi concordou baixinho. A renda apertou mais.

Foi provada e reprovada em prendas: andou para a dona ver ("quadril, Bibi, quadril... isso, achou!"), sentou de pernas cruzadas, aprendeu a ajeitar a alça caída com dois dedos e desdém. E quando a dona cansou do chá das duas, o jogo desceu de andar:

— Deita na cama, amiga. — A voz dela mudou para o registro das grandes noites, mas manteve o tratamento, e o tratamento era o chicote: — Deixa eu te contar um segredo... — ela subiu na cama ao lado da boneca, a boca na orelha dela, a mão subindo pela meia 7/8 — ...o meu namorado não sabe, mas eu adoro uma amiga de renda. E você... — a mão chegou, apertou, a Bibi arqueou inteira — ...você é exatamente o tipo dele e o meu. Que sorte a nossa, não?

Ela usou a boneca com as duas gramáticas ao mesmo tempo — a ternura de amiga e a posse de dona: beijou o batom até borrar ("pronto, agora você tá com cara de noite boa"), desceu a calcinha de renda só até os joelhos ("boneca não tira, boneca desarruma"), e trouxe o Lapis para o quarto de hóspedes com a naturalidade de quem apresenta uma conhecida em comum: "a Bibi vai adorar. É... coisa de amiga."

Vestiu-o na frente do espelho, deitou a boneca de lado, uma perna de renda erguida, e a tomou de conchinha, devagar e fundo, as duas de frente para o espelho grande — a dona de arreio dourado e a boneca de laço rosa, o quadro mais depravado e mais delicado que aquele espelho já emoldurou —, narrando no ouvido dela o tempo todo, entre estocadas: olha vocês duas... a Bibi entregue pra amiga... se o meu namorado visse, hein... ele ia ter tanto ciúme... de QUAL das duas, eu me pergunto...

A Bibi gozou de calcinha nos joelhos e laço no cabelo, olhando para o espelho, com a dona dentro dela e a voz dela por tudo — um orgasmo esquisito, agudo, atravessado de identidade, o mais desarrumado da série — e a dona gozou logo atrás, apertada na conchinha, mordendo o ombro de alça fina, rindo no fim daquele riso escandaloso que era, ele percebeu com o resto de lucidez, o mesmo riso para ele e para ela: a assinatura da casa não mudava de gênero, não mudava de nada.

✦ ✦ ✦

Depois, a dona desmontou a boneca com o mesmo capricho da montagem, em ordem inversa: o laço dobrado, a meia enrolada, o rosto limpo com demaquilante e algodão, movimentos circulares e lentos, o rosto dele reemergindo do rosto da Bibi como uma praia na maré baixa. Antes do batom sair, porém, ela buscou a câmera instantânea da gaveta.

— Uma só. Pro arquivo. — Clique, o flash, o retrato saindo com aquele zumbido antigo. Ela abanou a foto e a olhou revelar-se devagar: a Bibi, borrada de batom, os olhos enormes, o laço torto de conchinha. — Linda. Vai pro caderno, entre a nota do leilão e o prontuário. — Ela guardou, voltou para o algodão, e limpou a boca dele por último, o polegar demorando no lábio de baixo. — E aí. Fala a verdade pro registro: como foi ser ela?

Ele procurou a resposta no teto do quarto de hóspedes, e ela veio torta e verdadeira como a noite inteira:

— Descansado. — Ele riu do próprio termo, mas o manteve. — Ela não precisa ser forte, não precisa saber, não precisa resolver nada. Ela só precisa... obedecer bonitinho. Eu entendi umas coisas suas hoje, Selene.

— Entendeu nada. — Ela beijou a testa dele, terna e ladra, guardando o insight no bolso para sempre. — Mas anota que a Bibi volta. Ela tem futuro nessa casa. Só que antes... — a agenda chegou nos olhos dela, e o sorriso veio junto, e ele já sabia que dormiria intrigado — ...tem uma pendência de batismo. Boneca nova, na minha família, se batiza. E o batismo dessa casa, meu amor... — ela apagou a luz do camarim — ...não usa água benta.

Para levar a história para a vida real
O catálogo que inspira estes contos
Conhecer a Lovense →
Este conto contém link de afiliado. Posso receber comissão por compras qualificadas, sem custo extra para você.
Próximo · Nº 38
A Marca
Continuar a série →
← Nº 36 · O Check-up

Não perca o próximo

Contos novos, em breve narrados. Direto no seu e-mail.

✓ Você está na lista.