Ardilune
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Capa — A Ordenha
Ardilune · Contos · Nº 35

A Ordenha

— Cota do dia: cinco. A fábrica não fecha porque o operário cansou.

"Dorme bem. Você vai produzir."

Ele acordou no domingo com três batidinhas de prancheta no peito — uma prancheta de verdade, com mola de metal e tudo, comprada sabe-se lá quando para exatamente aquilo — e a arrematante sentada na beirada da cama, já de banho tomado, com uma caneta atrás da orelha e o semblante administrativo das grandes catástrofes anunciadas.

— Bom dia, patrimônio. — Ela destacou a primeira folha da prancheta e a depositou sobre o peito dele. — Compra nova entra em teste de rendimento. Lê a ordem de produção... e vai esvaziando a agenda, que hoje ela é minha das sete às sete.

*ORDEM DE PRODUÇÃO Nº 1 — vigência: 12 horas*
Cota do dia: CINCO extrações completas, em horários definidos pela gerência sem aviso prévio. Método de cada extração: a critério exclusivo da gerência. O operário não recusa, não negocia prazo e não esconde estoque.
Atenção: cansaço não suspende meta. Choro não suspende meta. Implorar — e você vai — não suspende meta. O que suspende meta, como sempre: amarelo (pausa) e três toques (fecha a fábrica na hora, sem multa).
Assinado: a Gerência. Que hoje acorda inspirada.

— Cinco? — A voz dele saiu meio rouca de sono e meio branca de cálculo. — Selene, meu recorde é...

— Três. Eu sei. Eu tenho os teus números todos, meu bem. — Ela sorriu, recolocou a caneta atrás da orelha, e a frase saiu com a doçura exata de uma meta abusiva de reunião de segunda-feira: — Por isso a cota é cinco. Gerência que respeita recorde não merece o cargo.

✦ ✦ ✦

A primeira extração veio às 7h40, ali mesmo, sem ele nem escovar os dentes — a mão dela, direta, eficiente, quase burocrática, com a prancheta apoiada no colchão ao lado para anotar o tempo. Foi fácil. Foi até bom demais: manhã, corpo descansado, a mulher da vida dele trabalhando nele com a cara de quem confere um relatório de estoque. Oito minutos. Ela anotou "nº 1 — 8min — operário confiante", deu um beijo na testa dele e mandou tomar café reforçado, "que a fábrica corre por conta da casa".

A segunda veio às 10h15, no meio do noticiário esportivo: ela entrou na sala, desligou a TV sem consultar, ajoelhou entre os joelhos dele e usou a boca — sem pressa dessa vez, caprichada, os olhos erguidos, o método menos fabril do catálogo — e ele produziu a segunda com as mãos no cabelo dela e um resto de arrogância: tranquilo, isso vai dar certo. Ela anotou "nº 2 — 14min — arrogância detectada", e sorriu ao guardar a caneta, e o sorriso devia ter sido lido como o aviso que era.

O intervalo do almoço teve manutenção preventiva de fazer inveja a spa: água de coco, fruta descascada na boca, vinte minutos de cochilo autorizado com a cabeça no colo dela, carinho de nuca — a gerência cuidando do maquinário com uma ternura que só tornava tudo mais sinistro, porque ele já conhecia o padrão da casa de cor: quanto melhor o tratamento, pior o turno seguinte.

A terceira veio às 13h50 e mudou o clima da fábrica. Ela o deitou na cama, encaixou o Solace nele — a funcionária, convocada de folga — e operou pelo app com a prancheta no colo, e a terceira demorou: vinte e cinco minutos de máquina paciente e polegar insistente, o corpo dele começando a cobrar juros dos dois turnos anteriores, o prazer chegando mais fundo e mais arrastado, com um gemido no final que já tinha um fio de esforço dentro. "nº 3 — 25min — estoque baixando. Fica interessante agora."

✦ ✦ ✦

A quarta veio às 16h30, e foi onde a fábrica mostrou para que veio.

Ele já não queria. Essa era a novidade absoluta, o continente inexplorado em trinta e quatro volumes: ele não queria — o corpo pesado, a pele sensível demais, o pau meio adormecido protestando o toque — e ela sabia, e era exatamente ali que a Ordenha morava, nessa fronteira. Ela o sentou contra a cabeceira, montou nas coxas dele com a paciência de quem tem o dia inteiro carimbado na agenda, e o acordou de novo com a mão cheia de óleo, devagar, ignorando os protestos com a serenidade de uma repartição pública em dia de expediente.

— Selene... — a voz dele já saiu num fio. — Não vai dar. Não tem mais.

— Tem. — A mão dela subiu e desceu, morna, implacável. — Você confunde não ter com não querer dar. É um erro contábil clássico. — Ela beijou o queixo dele, terna e impiedosa no mesmo gesto: — A cota é minha, o leite é meu, e a fábrica, meu amor... a fábrica não fecha porque o operário tá cansado. Você tem duas palavras se precisar delas. Tem?

Ele tinha. Amarelo na ponta da língua, três toques na ponta dos dedos — e não usou nenhum. E foi o não-uso, os dois sabiam, que assinou o resto da tarde: ele queria ser levado aonde não queria ir. A quarta saiu aos quarenta minutos, arrancada, os olhos dele revirando, as pernas tremendo sem instrução, um orgasmo comprido e quase doloroso que o deixou lavado de suor e vazio de qualquer arrogância remanescente. Ela anotou com a letra calma: "nº 4 — 40min — implorou para parar às 16h52. Não parei: ele não pediu com as palavras certas. Lindíssimo."

✦ ✦ ✦

A quinta foi às 19h10, e não foi uma extração: foi uma travessia.

Ela o deitou no meio da cama e o preparou como quem prepara uma cirurgia de amor: almofada nas costas, água na mesinha, o cabelo dela preso — sinal gravíssimo — e a sentença dita de frente, com as mãos seguras no rosto dele:

— Última do turno. Vai ser difícil, vai ser longa, e você vai chorar. — Não era ameaça; era escala de produção lida em voz alta. — Eu vou estar aqui dentro dela inteira, o tempo todo. Confia na gerência?

— Confio.

— Então produz.

Ela usou tudo: a boca sem pressa no começo, quando ele ainda era só sensível; a mão com óleo quando ele passou de sensível a implorante; o corpo dela por cima, dentro, quando ele cruzou de implorante para aquele país sem nome depois do limite — cavalgando devagar um homem em carne viva, cada movimento um relâmpago de prazer com fio desencapado, ele gemendo não consigo, não consigo no ritmo exato em que o corpo dele conseguia, ela respondendo consegue, é meu, consegue com a autoridade de quem tem procuração assinada sobre o impossível. E lá pelas 19h40, com o quarto escuro e os dois brilhando, a quinta veio — devagar, funda, quase seca, um tremor de fundação que dobrou ele inteiro e derrubou junto as lágrimas que ela tinha encomendado na sentença: de sobrecarga, de entrega, de coisa nenhuma com nome no dicionário. Ele chorou gozando e gozou chorando, e ela o segurou o tempo todo, testa na testa, colhendo a quinta com a mão e o resto dele com o corpo inteiro.

Meta batida — sussurrou ela contra a boca dele, e tinha lágrima nos olhos dela também, a gerência contaminada pela produção. — Cinco. Meu operário padrão-ouro. Meu.

✦ ✦ ✦

O pós-turno foi longo como manda o manual das travessias: banho morno dado por ela, canja improvisada às nove da noite — canja, ele notaria depois, já comprada na véspera, porque a gerência planeja o próprio choro alheio —, e ele embrulhado em cobertor no sofá com a cabeça no colo dela, flutuando naquela mansidão oca e doce de depois dos limites.

Ela preencheu o relatório final na prancheta, em voz alta, para ele ouvir:

— Relatório de produção. Cota: cinco. Realizado: cinco. Recorde anterior: superado em sessenta e sete por cento. Estado do operário: derretido, lavado, lindo. Estado da gerência... — ela olhou para baixo, para o embrulho no colo, e o lápis parou — ...apaixonada pelo maquinário. Anota isso não, vai. Estraga a auditoria.

— Anota — pediu ele, do fundo do cobertor.

Ela anotou. E já ia fechar a prancheta quando o lápis voltou, e a testa dela franziu de leve, e ele conheceu o franzido de longe: agenda.

— Só um dado me incomodou — disse ela, batendo o lápis no papel. — A queda de rendimento entre a quatro e a cinco. Quarenta por cento a mais de tempo, viscosidade baixa, tremor excessivo... — ela ergueu o lápis e o apontou para ele, e por trás da piada os olhos dela já brilhavam com o volume seguinte inteiro desenhado: — Isso, meu bem, gerência nenhuma resolve. Isso é caso clínico. Vou agendar seu exame completo. Semana que vem. Médica de confiança... — o sorriso abriu devagar, terrível — ...aliás, de confiança total. Você vai reconhecer o perfume.

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