
"Aproveita a vista enquanto ela é tua, meu amor."
Seis meses depois da noite do Tributo, o Imperador Ferdinando fez a única coisa que Roma jamais previu de um imperador: cumpriu a palavra dada a uma mulher.
O edito saiu na primeira lua do outono, afixado no fórum, e o escriba que o copiou pediu para conferir três vezes com o chanceler antes de molhar a pena:
"No equinócio, diante da corte reunida, a Princesa do Reino do Sul será coroada Imperatriz-Consorte de Roma. E como o trono não se recebe de graça, o Imperador pagará à coroada o tributo de posse... nos exatos termos em que o recebeu."
Nos exatos termos. Roma leu, releu, entendeu, e não dormiu direito por um mês inteiro — porque nos exatos termos significava estrado, tochas, testemunhas... e o homem mais poderoso do mundo deitado na púrpura, de tributo.
A matrona Cássia mandou reformar o leque antes mesmo de conferir a data.
Rufo, o mordomo-chefe, recebeu as instruções da futura Imperatriz numa audiência de vinte minutos da qual saiu pálido, rejuvenescido e com uma lista de três páginas. Discordou de um único item — "Alteza, o trono no estrado... trono não se move do salão de audiências desde o fundador" — e ela o venceu com a frase que ele repetiria pelo resto da vida a todo aprendiz de cerimonial: "Rufo, querido... a partir do equinócio, o trono fica onde eu sento."
Os quatro dias de preparação repetiram a liturgia da primeira festa — as doze colunas de seda, o palmo de pétalas pisadas por meninos descalços, os candelabros-árvore, o mel gotejando dos favos, os seis pavões e o leopardo velho, que àquela altura já era efetivo da casa e tinha nome, Cônsul —, mas com três acréscimos que a corte notaria na entrada, com a espinha gelando de véspera: o estrado agora tinha nove degraus, dois a mais que o da princesa, porque hierarquia se mede em escada; o trono de bronze e marfim tinha sido carregado do salão de audiências por dezesseis homens e instalado no topo, de frente para o leito de púrpura, formando com ele um pequeno teatro de dois móveis; e à direita do trono, sobre uma almofada escarlate, repousava um objeto coberto por um pano de linho que Rufo se recusou a descrever a quem perguntasse — e perguntaram todos.
A corte chegou ao pôr do sol, faminta como nunca: Metelo, oitenta anos e um casamento renovado, de mãos dadas com a esposa pela primeira vez em público desde o consulado passado; Cássia com o leque novo, de plumas negras, apostando agora em silêncio, só com os olhos; o poeta Ovínio com duas tabuletas, aprendida a lição; generais, herdeiras, o embaixador do Oriente que dessa vez nem fingiu não entender a língua. Trezentos e vinte — vinte a mais, os penetras da história — deitados nos divãs de Rufo, todos orientados, sem parecer, para o pequeno teatro de dois móveis no alto dos nove degraus.
Serviu-se o banquete de espera: as ostras na neve, os figos indecentes, um javali sem tordos — Rufo não repetia efeitos — e, novidade que arrancou aplauso, uvas servidas nos cachos pendurados em arcos de bronze sobre cada divã, para comer sem as mãos, erguendo a boca, ensaiando sem saber a postura da noite inteira: o queixo para o alto.
Ela entrou quando a lua chegou à janela — e dessa vez as flautas não pararam: mudaram, sozinhas, para um ritmo mais fundo, o de tambor de guerra desacelerado, porque os músicos de Rufo aprendiam rápido.
A Princesa do Reino do Sul atravessou o salão pela última vez com esse título. Não veio de seda branca: veio de púrpura — a cor reservada por lei ao Imperador, o primeiro escândalo da noite, vestida antes da coroa como quem já mora no cargo —, um vestido pesado, de rainha antiga, fechado do pescoço aos pés, mais nu que a nudez pela promessa do contrário. O cabelo preso em coroa de trança, dessa vez: "trança é pra quem vai casar", lembraria a dama de companhia, "e coroa é pra quem vai reinar — hoje ela foi as duas."
Atrás dela, seis damas carregavam a cauda. Atrás das damas, sozinho, descalço, de túnica simples de linho cru sem um bordado — a roupa de um lavrador, no corpo do dono do mundo —, caminhava o Imperador de Roma.
O silêncio no salão fez barulho.
A coroação foi rápida, porque ela quis: "cerimônia longa é insegurança", ditou a Rufo. O sumo sacerdote disse as fórmulas, o arauto leu o edito, e o Imperador em pessoa — não o sacerdote, quebra de rito que fez o sumo sacerdote fechar os olhos e decidir não ter visto — depositou o diadema de ouro e safiras sobre a cabeça dela, ajoelhando um joelho para alcançá-la melhor, e Roma viu o dono do mundo ajoelhar e não soube se aplaudia ou rezava, e fez os dois ao mesmo tempo.
A Imperatriz sentou-se no trono. Acomodou a púrpura. Correu os olhos pela corte inteira, fileira por fileira, cobrando o silêncio como cobrava tudo — e então, do alto dos nove degraus, deu sua primeira ordem de Estado:
— Tragam o tributo.
Duas damas conduziram o Imperador ao centro do estrado, diante do trono, de frente para ela e de costas para Roma — o rosto é meu, o resto é deles, a lei da casa atravessando os séculos e mudando de dono sem mudar de texto —, e a Imperatriz ergueu da almofada escarlate a tesoura de ouro cerimonial e cortou, ela mesma, a túnica de linho cru do pescoço à barra, um talho só, deixando o pano cair como casca. O dono do mundo ficou nu diante do mundo, e o mundo — trezentas e vinte gargantas — esqueceu de funcionar.
— Corte de Roma — anunciou ela, e a voz do trono carregava sem esforço até a última fileira. — Há seis meses, este homem me recebeu como tributo e me pagou em glória. Hoje eu cobro... — ela desceu os nove degraus devagar, uma mão erguendo a púrpura, a outra descansando no ombro dele ao passar, o gesto de quem toma posse de um território que já mapeou inteiro, palmo a palmo — ...nos exatos termos. Testemunhem, que é pra isso que os convidei: ninguém dirá jamais que a Imperatriz reinou no escuro.
Ela o deitou na púrpura com a cabeça voltada para o trono vazio — símbolo que o poeta Ovínio anotaria com a mão trêmula: o tributo olha o cargo, o cargo olha de volta — e começou exatamente onde ele tinha começado seis meses antes: devorando.
Sentou no rosto dele diante de Roma com o vestido de púrpura aberto agora até a cintura, os joelhos cravados na seda dos dois lados da cabeça imperial, e tomou — sem pressa, sem pudor, a Imperatriz coroada cavalgando a boca do Imperador com o diadema de safiras pegando a luz das doze tochas a cada giro de quadril. A corte assistia ao impensável: o homem que mandava no mundo servindo com a língua, as mãos dele agarradas nas coxas dela como um náufrago agarra o próprio naufrágio, e ela por cima narrando para o salão, porque o rito exigia voz e a voz agora era do trono:
— Roma... olha bem. É assim que se cobra um império: na fonte. — O quadril girando, a voz falhando linda, o deboche e o gozo trançados: — Ele lambe bem, o meu tributo... seis meses de treino... eu trouxe ele pronto.
Ela gozou a primeira no rosto dele, de coroa e tudo, o grito subindo para os afrescos do teto onde os deuses pintados fingiram não ouvir — e nem desceu: girou o corpo, ainda montada, agora de frente para a plateia, e mandou a língua dele continuar por trás enquanto anunciava a segunda parte, ofegante e soberana:
— O pano, Rufo.
Rufo subiu os nove degraus com a almofada escarlate, o passo de quem carrega a história nos braços, e destapou diante da corte o objeto que Roma inteira tentava adivinhar havia quatro dias: o marfim do Sul — um falo de marfim polido, curvo, magnífico, preso a um arreio de couro dourado, presente de coroação do reino da Imperatriz, esculpido, dizia a lenda que ela mesma espalhou, das presas do elefante que o pai dela montou na guerra. O suspiro coletivo apagou três velas. A matrona Cássia parou o leque novo no ar. E o Imperador, deitado na púrpura, olhou o marfim, olhou a mulher coroada, e a corte inteira viu o dono do mundo fazer com a cabeça — clara, inequívoca, faminta — a única coisa que faltava para o rito ser lei: sim.
— De quatro, Imperador — ordenou a Imperatriz de Roma. — A garupa pro trono. O rosto pro teu povo... que ele precisa ver a tua cara quando o Sul cobrar.
O azeite morno veio na ânfora de prata, escorrido pelo mesmo criado da primeira festa — um ano mais velho, dez anos mais calejado, mãos firmes agora, promovido pela repetição do impossível. Ela vestiu o arreio dourado por baixo da púrpura aberta, ajoelhou-se atrás do homem mais poderoso do mundo, abriu-o com os polegares e o beijou primeiro — a grega imperial, funda e sem pressa, diante de trezentos e vinte — e depois entrou nele com o marfim do Sul, um centímetro e a pausa, espera... espera... vai, o protocolo que vale em todos os impérios de todos os tempos, até o couro dourado encostar na pele dele e Roma inteira ouvir o som que o Imperador fez: um gemido fundo, rachado, de fortaleza aberta por dentro — o som exato, diriam os cronistas, de um trono trocando de dono no meio do salão.
— Fala pra eles — mandou ela, cavalgando-o devagar, uma mão na cintura dele e a outra erguida para o salão como quem rege uma orquestra de trezentas gargantas. — Fala pra Roma de quem tu és.
— Dela! — O grito do Imperador varou o salão e entrou para os anais sem precisar de escriba. — Roma é dela... o trono é dela... eu sou dela... assistam!... o império inteiro é da Imperatriz!
E Roma assistiu, e Roma morreu de novo, e dessa vez nem fingiu compostura: Cássia abanou-se até quebrar a vareta do leque novo; Metelo beijou a esposa na boca em público, oitenta anos de protocolo derretendo numa vez; o embaixador do Oriente aplaudiu de pé no meio da cena, sozinho, e ninguém o julgou; e Ovínio escreveu nas duas tabuletas ao mesmo tempo, uma com cada mão, ambidestro por necessidade histórica. No estrado, a Imperatriz virou o tributo de costas para a púrpura — o rosto no fim é meu, sempre foi, sempre será —, montou nele por cima, guiou-o para dentro de si com o marfim ainda morno abandonado na seda como uma espada após a vitória, e cavalgaram juntos o final: coroa contra suor, safira contra olho, o Imperador explodindo dentro da Imperatriz com um urro de vassalagem e ela gozando a terceira por cima dele, rindo e tremendo, uma mão no peito dele e outra segurando o diadema no lugar — porque coroa, aprenderia Roma naquela noite, não cai: reina até no terremoto.
No silêncio de depois, ouviu-se: cera pingando, o leopardo Cônsul roncando, e a vareta quebrada do leque de Cássia batendo no mosaico. A Imperatriz ergueu-se sobre um cotovelo, correu os olhos pela corte devastada e encerrou a era com a frase que os escribas gravariam no arco do salão:
— Podem levantar. Roma agora tem dona.
A aurora encontrou os dois no topo dos nove degraus, enrolados na mesma púrpura — o trono vazio ao lado, o marfim do Sul dormindo na almofada escarlate, o salão lá embaixo sendo devolvido ao mundo pelas vassouras silenciosas de Rufo. Ela tinha tirado o diadema e o pendurado, por brincadeira ou por tratado, no pé do trono: até as coroas descansam.
— Confessa — disse ela, com a cabeça no peito do tributo, desenhando círculos lentos onde o coração dele ainda galopava. — Seis meses assinando editos, movendo trono, encomendando marfim... você teve medo em algum momento?
— Um. — Ele beijou a testa da Imperatriz, e dava para ouvir o sorriso: — Quando te vi descer os nove degraus. Aí eu entendi que não tinha coroado uma consorte... tinha coroado uma dinastia.
— Entendeu certo. — Ela bocejou, aconchegou-se na púrpura, e a última frase do império saiu mansa, já meio sonho, com o selo de tudo que ainda viria: — Dinastia, meu amor, é isso: agora todo equinócio é meu. E no próximo... — os olhos fechados, o sorriso aberto — ...eu vou leiloar o tributo pra corte inteira ver quanto vale. Não vende, claro. Só pra Roma chorar de inveja do que eu tenho.

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