Ardilune
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Capa — A Sessão
Ardilune · Contos · Nº 27

A Sessão

— Conta em voz alta. Agradece cada uma. Errou a conta, recomeça.

"Dor bem dada, meu amor, é outro departamento. E eu ando estudando."

Ele a flagrou numa terça à noite, no sofá, com um novelo de corda de algodão cru no colo — dez metros, macia, cheirando a loja de armarinho — e um vídeo pausado no notebook: uma mulher de meia-idade, didática como professora de tricô, demonstrando um nó em câmera lenta. No braço do sofá, três tentativas anteriores: duas frouxas, uma perfeita.

— Não pergunta — disse ela, sem tirar os olhos do nó, a ponta da língua no canto da boca, refazendo a volta pela quarta vez. — Segredo de departamento.

Ele não perguntou. Passou a semana olhando o braço do sofá como quem olha um oráculo que ainda não decidiu falar.

✦ ✦ ✦

A convocação veio no sábado seguinte de manhã, e pela primeira vez em vinte e sete volumes, o regulamento não era decreto: era consulta.

Ela o sentou à mesa com café de verdade e uma folha em branco entre os dois, e falou num tom que ele conhecia de pouquíssimas ocasiões — o tom sem jogo, o de fundação, o que ela usava para as coisas que vinham antes das regras:

— Hoje à noite eu quero te dar dor. — Ela deixou a frase assentar limpa, sem adorno, sem provocação. — Dor boa, dosada, com as minhas mãos e com cera de vela. Amarrado. Vendado. Contando em voz alta. Eu estudei três semanas pra isso — a corda certa, a vela certa, tá tudo separado. Mas esse jogo é diferente de todos os outros, e jogo diferente se negocia antes, de café na mão, com sol na janela. — Ela empurrou a folha e a caneta: — Desenha um boneco. Marca onde pode. Marca onde nunca. Eu faço o mesmo com o que pretendo. A gente confere junto.

Foi a meia hora mais estranha e mais íntima da história dos dois: dois adultos desenhando bonecos numa mesa de cozinha, rindo no meio, sérios no meio do riso. Ficou mapeado: costas, nádegas e coxas, sim; cera só onde ela apontou; nada no rosto; nada que marcasse além de terça-feira. Os três toques, soberanos como sempre — e uma palavra nova, amarelo, para o meio do caminho: continua, mas não sobe.

— Por que amarelo? — perguntou ele.

— Porque no vermelho eu paro tudo. Mas eu quero saber ONDE você mora entre o verde e o vermelho. — Ela recolheu os bonecos e guardou na pasta, com o resto do processo da vida deles. — É lá que a sessão acontece.

À noite, o quarto estava irreconhecível de tão reconhecível: a liturgia dela elevada a rito maior, a catedral da casa. Toalha escura na cama. A corda em rolos gêmeos na cômoda. A vela — baixa, larga, de soja, comprada por causa de um parágrafo específico do estudo sobre ponto de fusão — já acesa, criando teto novo no quarto, um teto que respirava. E ela de preto simples, cabelo preso, sem joia nenhuma exceto a autoridade.

A amarração levou meia hora e foi, ele diria depois, a parte mais erótica da noite inteira — e não houve um toque obsceno nela. Ela o amarrou de bruços, os pulsos à cabeceira com o nó do sofá, as voltas de corda subindo pelos antebraços em espinha de peixe, cada volta conferida com dois dedos por baixo — aperta? formiga? dobra o dedo — o algodão cru mordendo devagar, o cheiro de armarinho misturando com o de vela, e a respiração dele descendo, descendo, descendo, até um andar do próprio corpo que ele não sabia ter porão.

— Venda — anunciou ela, e a seda velha conhecida apagou a luz. A voz dela veio depois, de todos os lados de uma vez: — Regras da sessão. Eu dou, você conta. Cada uma tem número e o número tem que vir com "obrigado". Errou a conta... recomeça do um. Amarelo segura, vermelho para, três toques param até o teto. — Os lábios dela pousaram na nuca dele, leves como o exato contrário do que viria: — Última chance de palavra livre. Fala agora.

— Verde — disse ele. — Verde, Selene.

✦ ✦ ✦

A primeira palmada não foi ensaio: chegou inteira, aberta, no meio da nádega esquerda, com o som de um livro grosso fechando — e o mundo dele, que a venda tinha reduzido a ouvido e pele, acendeu num mapa de calor que ele nunca tinha visitado em nenhum volume.

Um — disse ele, quando o fôlego voltou. — Obrigado.

— Olha só. — A voz dela tinha um sorriso novo dentro, um que ele não conhecia do repertório. — Talento nato.

✦ ✦ ✦

Ela construiu a dor como construía tudo: em arquitetura, com fundação e viga. Palmadas em série de cinco, alternando o lado, o ritmo imprevisível de propósito — duas rápidas, uma espera comprida em que a mão dela só pairava, o corpo dele inteiro tentando adivinhar de que lado e quando —, e entre as séries, o contraponto: a unha subindo leve pela pele quente, a boca dela num beijo demorado exatamente onde tinha ardido, o frio de um gole d'água oferecido de boca em boca por cima do ombro. Dor e mel, alternados sem aviso, até os dois ficarem indistinguíveis no escuro da venda, um só idioma.

Quatorze... obrigado.

— Quatorze foi a mais forte até agora. E você agradeceu mais bonito. — A mão dela repousou no estrago, medindo o calor com a palma como quem mede febre. — Cor?

— Verde. — E depois, de dentro do porão, com uma voz que ele não reconheceu como sua: — Verde-escuro.

A cera veio no vigésimo. Ela avisou só com o som — não o sopro que apaga a vela, o contrário: o silêncio de quem a ergueu do castiçal — e o primeiro pingo caiu entre as escápulas dele de uma altura estudada em três semanas: um susto de calor que virou mancha, que virou peso, que virou casca morna endurecendo — dor nenhuma, e tudo, uma fronteira riscada em cera no meio das costas. Ele gemeu um som sem vogal, um som do subsolo. Ela pingou de novo, mais abaixo, desenhando uma constelação lenta ao longo da coluna, cada estrela anunciada pelo pavor delicioso do intervalo, e ele foi embora — não desmaiou, não dormiu: foi, flutuando para dentro do próprio corpo, o porão abrindo para um subsolo onde não existia mais conta, nem número, nem nome, só a voz dela lá em cima, farol na superfície:

— Perdeu a conta, né? — A voz chegava com eco de superfície, de quem fala de fora d'água. — Tudo bem. Lá onde você tá... não tem número mesmo. Eu assumo a contabilidade. Fica. Flutua. Eu tô aqui.

Ela o virou de costas com cuidado de restauradora — a cera estalando em placas, a corda refeita na frente em duas voltas simples — e montou nele ali, no meio do subsolo dele, guiando-o para dentro dela com a mão. E o sexo, dessa vez, não foi jogo nem placar, foi maré — ela cavalgando devagar sobre um homem amarrado e ausente e presente como nunca em vinte e sete volumes, os olhos dele vendados e a boca dizendo o nome dela como quem respira, ela gozando comprido e quase silenciosa, testa na testa dele, e ele atrás dela, dentro dela, um gozo que subiu do subsolo com pressão de coisa geológica e o deixou tremendo em ondas por um minuto inteiro depois de acabar.

✦ ✦ ✦

O aftercare durou mais que a sessão — e ela o executou como quinto movimento, não como epílogo, porque o estudo dizia e porque o coração mandava, e os dois concordavam pela primeira vez na noite sem negociar. A corda saiu volta por volta, cada pulso massageado no caminho. A venda saiu por último, para a luz da vela não machucar os olhos. Veio água com canudo, chocolate quebrado em quadradinhos servidos na boca, a pomada de calêndula nas nádegas aplicada com a mesma mão que — a mesma mão, ele pensou, de longe, e alguma coisa nele entendeu o jogo inteiro de uma vez, a arquitetura completa: a mão que dá a dor é a mão que cuida da dor, e nunca houve duas. Veio o cobertor pesado. Veio ela por dentro do cobertor, colada, a perna por cima, a mão no peito dele contando outra coisa agora: batimentos, descendo, voltando ao normal do mundo.

— Volta devagar — sussurrou. — Não tem pressa. Eu seguro a lanterna.

Quando ele voltou inteiro, muito depois, a vela tinha virado um lago morno no vidro e a voz dele ainda saía de longe:

— Selene. Aquele lugar. Onde eu fui. — Ele procurou as palavras com mãos de recém-acordado, tateando. — Eu nunca... saí de mim desse jeito. E você tava lá o tempo todo.

— Eu sei. Eu vi você ir. — Ela apertou-o mais para dentro do cobertor, e havia nos olhos dela um orgulho de outra categoria, fundo e quieto, sem nenhuma vaidade de dona: o orgulho de quem foi confiada com uma coisa frágil e não deixou cair. — É o lugar mais bonito que você já me deixou visitar. — Silêncio de vela. E então, porque era ela, a agenda falou de dentro da ternura, as duas coisas na mesma voz: — Uma sessão é pouco, sabia? Duas horas e o mundo volta. Eu fico pensando... — os dedos dela desenharam um círculo lento no peito dele, um relógio completo, doze horas — ...o que acontece com você se eu não devolver o mundo amanhã de manhã?

— Como assim?

— Um dia inteiro, meu amor. Das sete às sete. — Ela bocejou, aninhada, e apagou a pergunta junto com a luz: — Dorme. Sábado que vem você acorda de coleira e não tira mais até a noite.

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