Ardilune
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Capa — A Coleira
Ardilune · Contos · Nº 25

A Coleira

— Todo mundo vai elogiar o cordão. Ninguém vai saber que é guia.

"Amanhã você descobre. De joelhos, de preferência."

A caixinha de veludo passou a noite na bolsa dela e o domingo inteiro na cabeça dele. Quando ela enfim a colocou sobre a mesa de centro — ao lado de duas xícaras de café que ninguém ia beber —, ainda tinha o adesivo do free shop colado na base, com o preço arrancado pela metade: sobrou o cifrão e a dignidade.

— Abre você — disse ela, recostada no sofá, os pés recolhidos, gata em dia de decisão importante.

Dentro, sobre o cetim, um cordão de aço escovado — masculino, sóbrio, de elos miúdos e fecho pesado, o tipo de peça que qualquer amigo elogiaria num churrasco sem desconfiar de absolutamente nada. E era exatamente essa a beleza da arma: o disfarce vinha de fábrica.

— É bonito — disse ele, sem entender ainda.

— É lindo — corrigiu ela. — E não é um colar. — Ela deixou o silêncio assentar a frase, e completou com a voz que trocava o mobiliário da sala: — Colar é joia. Isso é coleira. A diferença não tá no aço... tá no fecho. Joia, você tira quando quer. — Ela se inclinou para a frente, pegou o cordão da caixa e o pesou na palma: — Essa aqui, só a dona abre.

✦ ✦ ✦

A colocação teve liturgia — porque na casa deles, a essa altura da série, tudo que importava tinha.

Ela o fez ajoelhar no meio da sala, de frente para ela sentada no sofá, e leu os termos de cabeça, no tom de quem lavra de próprio punho um documento que decorou de tanto ensaiar:

*TERMO DE OUTORGA — A COLEIRA*
Um: a coleira fica. No banho, no trabalho, na rua, na frente de todo mundo. Ela só sai pela minha mão — e quando sair pela minha mão, você vai saber o que significa.
Dois: quem pergunta, ouve a verdade pela metade: "foi presente dela". Sorria ao dizer.
Três: o código. Quando eu tocar a minha clavícula — assim — você tem dez minutos para me mandar um áudio dizendo, com todas as palavras, o que faria comigo naquele exato instante. Onde quer que você esteja. Com quem quer que você esteja.
Quatro: os três toques de sempre revogam tudo, inclusive isto. Amor com fecho é coleira; sem fecho seria coleira de verdade — e disso a gente não brinca.

— Aceita? — perguntou ela, e não havia jogo nenhum na pergunta: havia a pergunta, nua, esperando.

— Aceito.

Ela fechou o cordão na nuca dele com as duas mãos, devagar, e o clique do fecho soou na sala inteira como um cartório carimbando. Depois beijou-o na testa — a única vez em todos os volumes que a testa veio antes da boca — e disse baixinho, contra a pele: meu, com etiqueta e tudo.

A calibração levou a semana. Na terça, no meio do mercado, entre o hortifruti e a fila do açougue, ela tocou a clavícula distraidamente enquanto escolhia tomates — e ele, com o cesto na mão, teve que se refugiar atrás da pilha de caixas de leite para gravar, sussurrando, um áudio que faria o açougueiro largar a profissão. Na quinta, ela acionou o código por mensagem de vídeo, de dentro do banho. E no sábado veio a prova de fogo: o jantar com os amigos.

Mesa para oito, num apartamento alheio, vinho honesto e conversa boa. O amigo anfitrião elogiou o cordão antes da entrada — "que peça, hein" — e ele respondeu conforme a cláusula dois, sorrindo: "presente dela", enquanto ela, do outro lado da mesa, erguia a taça num brinde mudo à verdade pela metade. E às dez e vinte, no meio de uma discussão animada sobre reforma de apartamento, ela olhou para ele por cima da mesa, sorriu de canto... e tocou a clavícula com dois dedos, devagar, como quem ajeita uma alça que não existia.

Ele levantou da mesa com a compostura de um homem-bomba, trancou-se no lavabo dos amigos — azulejo verde, toalhinha bordada, um sabonete em forma de concha que nunca tinha visto uso — e sussurrou para o celular, a nove metros da mesa, o áudio mais indecente da história daquele lavabo. Quando voltou, ela conferia o celular por baixo da mesa. Ergueu os olhos para ele. Aprovou com uma piscada lenta.

— Tudo bem lá? — perguntou o anfitrião.

— Tudo ótimo — disse ele. E era a verdade inteira, sem metade nenhuma.

✦ ✦ ✦

Foi na volta desse jantar — corredor do apartamento deles, chave ainda na porta — que ela o parou com um dedo no peito, e ele viu nos olhos dela que a semana de calibração tinha acabado.

— Sabe o que eu descobri hoje, te vendo sorrir pros nossos amigos com a minha coleira no pescoço? — Ela enganchou o indicador no cordão, devagar, testando o peso. — Que eu passei a semana usando ela de enfeite. Código, áudio, brincadeira de longe. — O dedo dela fechou. Puxou. Não forte: firme — e o aço obedeceu, e o pescoço dele obedeceu ao aço, e a boca dele desceu até a altura da boca dela. — Enfeite acabou. Agora ela vai trabalhar de guia.

✦ ✦ ✦

Ela o conduziu até o quarto pelo cordão — dois dedos enganchados, o passo dela ditando o dele, um cortejo de dois pela casa escura — e o que aconteceu lá dentro teve uma gramática nova: a tração.

Ela o despiu deixando a coleira por último e único; deitou-o; montou nele; e não largou o cordão um segundo sequer. Descobriu, nos primeiros minutos, o vocabulário completo do aço: o puxão curto que dizia agora; a torção lenta que dizia ainda não; a mão espalmada por cima, prendendo os elos contra o peito dele, que dizia fica. Ela cavalgava e conduzia ao mesmo tempo, amazona com rédea, o quadril num ritmo e o pulso noutro — e ele, que já tinha sido mobília, súdito, estagiário e filial, estreou o cargo mais antigo do mundo: animal de estimação da rainha.

— Fala o que é a coleira — exigiu ela, puxando-o para cima pela nuca de aço, a boca dela a um centímetro da dele, o ritmo desabando para o fundo.

— Sua mão. No meu pescoço. Sempre.

— Mesmo quando eu não tô?

Principalmente quando você não tá.

— Resposta certa. — Ela soltou o cordão de uma vez — e a ausência súbita da tração foi o gatilho mais estranho e mais eficaz já testado naquela cama: ele desabou de volta no travesseiro e ela desceu junto, colada, gozando com a mão fechada de novo nos elos, agora, meu bicho, junto, AGORA — e ele gozou com o pescoço arqueado contra o aço, oferecido, guiado até no fim.

✦ ✦ ✦

Depois, ela lustrou os elos do cordão com a ponta do lençol, um por um, cuidando do patrimônio, enquanto ele flutuava de volta para o corpo.

— Agora que ela tá batizada — disse, terminando o polimento —, vem a parte administrativa. Coleira dá direitos... e dá deveres. Três regras, a partir de amanhã. — Ela ergueu um dedo: — Um: o código da clavícula continua valendo sempre. Dois: suas mãos continuam sendo minhas — você não se toca sem alvará, nem em semana comum. — Segundo dedo, e o terceiro veio junto com o sorriso: — Três: você nunca, nunca, mente pra dona. Nem por omissão.

— E se eu quebrar alguma?

Ela terminou de dobrar o lençol sobre os dois antes de responder, e a resposta veio com a calma exata de quem já tinha o processo redigido na cabeça, com autos e numeração:

— Aí, meu amor, você vai descobrir que a sua dona... estudou pra isso a vida inteira.

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