Ardilune
☾ 7 min de leitura
Capa — Boca Suja
Ardilune · Contos · Nº 17

Boca Suja

— Hoje nada acontece calado. E eufemismo custa caro.

Foi num áudio distraído, tarde da noite, que escapou dele uma frase sem tradução — crua, direta, com todas as letras, do jeito que se pensa e não se fala. O tipo de frase que a educação intercepta na alfândega da garganta. Essa passou. Ele mandou, ouviu o próprio áudio, gelou, e se desculpou no áudio seguinte, já de pijama e vergonha.

Ela respondeu em cinco segundos que valeram um destino:

"Desculpa por quê? Repete. Mais devagar. E nunca mais me traduza nada."

E havia também a anotação da noite da coroa — quando você manda, a sua boca perde a vergonha. Anotado. Com prioridade — que ele tinha ouvido meio dormindo e arquivado como carinho. Erro de classificação. Na casa dela, prioridade era cronograma.

As regras vieram impressas — porque ela tinha aprendido com o contrato de posse que papel dá peso — e estavam dobradas no travesseiro dele quando saiu do banho:

*JOGO DE HOJE: BOCA SUJA.*
Regra um: nada acontece sem antes ser dito em voz alta — e dito com as palavras de verdade.
Regra dois: eufemismo, poesia, reticência ou "aquilo" custam dois minutos de pausa total, cronometrados.
Regra três: quem fala primeiro o que quer, ganha o que pediu.
Regra quatro: vale tudo que a gente já fez. Só que agora tem que ter nome.

Embaixo, à caneta, a assinatura de sempre — a Dona — e um pós-escrito que era ao mesmo tempo cortesia e ameaça:

Eu começo. Pra você ver como se faz.

✦ ✦ ✦

Ela começou.

Sentou-o na beira da cama, ficou de pé entre os joelhos dele, ainda vestida — a roupa inteira, o que tornava tudo pior —, aproximou a boca da orelha dele, e fez, com a voz mais calma e didática do mundo, o discurso de abertura mais indecente da história dos dois:

— Hoje eu vou chupar seu pau até você esquecer o próprio nome. Depois eu vou sentar na sua cara, e você vai chupar minha buceta do jeito que eu mandar, com a língua que eu mandar, no tempo que eu mandar. E quando eu estiver bem molhada e bem gozada, eu vou cavalgar você até a gente furar esse colchão. — Ela afastou o rosto, verificou o estado dele com satisfação clínica, item por item, e concluiu: — Isso foi uma frase completa, com todas as palavras. Agora você. O que você quer? E olha que eu vou cobrar exatamente o que a sua boca conseguir dizer. Nem um milímetro a mais.

Ele abriu a boca. E descobriu, ali, sentado na beira da própria cama, o tamanho real da armadilha: vinte anos de boa educação sentados em cima da língua, pesando toneladas. O desejo estava inteiro, formulado, urrando lá dentro — e o que atravessou a alfândega foi um híbrido covarde:

— Eu quero... te sentir...

Sentir? — Ela deu um passo atrás, pegou o celular, abriu o cronômetro na cara dele como quem lavra um flagrante. — Dois minutos. "Sentir" é verbo de cartão de dia dos namorados. — E sentou na poltrona do canto, cruzou as pernas, balançou o pé. — Eu vou ficar aqui, morrendo de vontade, olhando pra você. A culpa é da sua boca.

Foram os dois minutos mais pedagógicos da vida dele: ela na poltrona, linda, disponível e inalcançável, o pé balançando os segundos; ele na cama, pagando em tempo real o imposto do eufemismo. Quando o cronômetro apitou, ele falou — e falou certo, a frase saindo inteira, com endereço:

— Eu quero foder você. Devagar primeiro, porque eu gosto de te ouvir. Depois do jeito que você pediu: até furar o colchão.

Ela levantou da poltrona com um sorriso de formatura, orgulho de banca examinadora.

Viu? Nem doeu. — E puxou o vestido por cima da cabeça, encerrando a aula teórica. — Doeu?

— Doeu — admitiu ele. — Nunca mais vou conseguir mandar um "bom dia, linda" sem lembrar dessa noite.

— Esse — disse ela, jogando o vestido na poltrona — era exatamente o plano.

✦ ✦ ✦

E o jogo engrenou, porque a regra três era gasolina pura: quem fala primeiro, ganha. De repente os dois disputavam a palavra como disputavam o corpo, cada pedido uma aposta mais alta que a anterior, um leilão de boca aberta.

Ela pediu e ganhou: anunciou "agora eu vou chupar você" e cumpriu a promessa inteira, sem pressa, erguendo os olhos de vez em quando só para narrar o que a boca ocupada permitisse — e o que ela narrava, nos intervalos, tinha o dobro do efeito do que ela fazia, o que era estatisticamente impossível e estava acontecendo ali mesmo, mensurável, no quarto.

Ele aprendeu rápido, como sempre — cinco volumes de treinamento, afinal, contando a coroa. Aprendeu que dizer vou te chupar até você tremer antes de descer nela transformava o ato em profecia, e profecia cumprida arranca outro tipo de gemido, o gemido de quem viu a previsão dar certo. Aprendeu que ela ficava mais molhada com uma frase suja dita na hora exata do que com dez minutos de técnica calada — me diz como eu tô, ela mandava, e ele dizia, com as palavras de verdade, laudo completo, e ela gozava com o relatório na segunda frase.

— Fala enquanto faz — ordenou ela em algum ponto, deitada, aberta, os dedos dele nela e a voz dele na orelha dela. — Não para de falar. Se a sua boca parar, a sua mão para junto.

E ele não parou. Narrou tudo: o que fazia, o que ia fazer, o que ela era naquele exato momento — minha, molhada, escandalosa, a coisa mais gostosa que esse quarto já viu —, o vocabulário inteiro desbloqueado de uma vez feito represa rompida, palavras que ele nunca tinha dito em voz alta na vida saindo agora em frase corrida, com endereço e destinatária, cada uma recebida com um arqueio de quadril que valia por um recibo. E ela respondendo à altura, mais suja que ele, sempre exatamente um degrau mais suja que ele — professora até no abismo.

✦ ✦ ✦

O final foi ela por cima, conforme prometido no discurso de abertura, cláusula por cláusula — cavalgando com a boca colada na orelha dele, cumprindo a promessa do colchão com dedicação estrutural, os dois falando ao mesmo tempo agora, um por cima do outro, obscenidade em dueto, metade ordem, metade oração:

— Fala que essa buceta é sua.

Minha. Fala que esse pau é seu.

— Meu. Tudo meu. Sempre foi meu. — Ela cravou as unhas no peito dele, o ritmo desabando para dentro do fim. — Agora fala a última. A que você guardou. Eu sei que você guardou uma.

Ele tinha guardado mesmo. Falou com a voz já destruída, olhando nos olhos dela, no segundo exato em que os dois despencaram juntos:

Goza comigo, meu amor.

E não era suja — era a mais limpa da noite inteira, e por isso mesmo, no meio daquele festival de imundície gloriosa, foi a que quebrou os dois. Ela gozou gritando palavrão, ele gozou gritando o nome dela, e o colchão, contra todos os prognósticos e apesar da dedicação estrutural, sobreviveu.

Por pouco.

✦ ✦ ✦

Depois, ela esticou o braço para o chão, resgatou o papel das regras do meio da roupa caída, alisou-o no lençol e pediu a caneta do criado-mudo com dois dedos, sem levantar a cabeça do peito dele.

— Adendo — anunciou, escrevendo. — Regra cinco: o vocabulário desbloqueado nesta data não expira e pode ser exigido a qualquer momento, inclusive por mensagem, inclusive em horário comercial. — Assinou, dobrou, e guardou o papel na bolsa, junto do outro contrato, o acervo jurídico da casa crescendo. — Sua boca falou coisa hoje que eu vou cobrar por escrito.

— Horário comercial é golpe baixo.

— Golpe baixo — ela deitou de volta, e ele sentiu o sorriso contra a pele — é você ter escondido essa boca de mim por todo esse tempo. Tem crime aí. Apropriação indébita. — Ela bocejou, e a voz foi baixando pro registro de fim de expediente: — E aproveita que ela tá solta, a boca... porque tem um pedido meu antigo esperando exatamente por ela. Aquele que você riu quando eu fiz. O do bar de beira de estrada. — Pausa de quem confere o próprio arquivo: — Não ri dessa vez, né? Aprendeu.

— Selene...

— Amanhã cedo eu quero um "bom dia" novo. Você sabe o gênero. Capricha... que agora eu conheço o seu talento.

Para levar a história para a vida real
O catálogo que inspira estes contos
Conhecer a Lovense →
Este conto contém link de afiliado. Posso receber comissão por compras qualificadas, sem custo extra para você.
Próximo · Nº 18
Sem Educação
Continuar a série →
← Nº 16 · A Invertida

Não perca o próximo

Contos novos, em breve narrados. Direto no seu e-mail.

✓ Você está na lista.