Ardilune
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Capa — A Regra do Silêncio
Ardilune · Contos · Nº 11

A Regra do Silêncio

— Uma regra só. Nenhum som. Aconteça o que acontecer.

"Você é barulhento", ela riu, naquela noite — a da venda, no meio dos escombros, quando o riso dele atravessou o quarto recém-devolvido à luz. "Geme, fala, agradece, xinga. Parece torcida organizada."

Ele ia se defender. Ela completou primeiro, com aquele brilho de quem acaba de ter uma ideia perigosa e já está mobiliando os detalhes:

"Adoro. E é exatamente por isso que um dia eu vou te proibir."

A proibição chegou semanas depois, quando ele já tinha esquecido.

Ela nunca esquecia. O arquivo dela não tinha traça, não tinha prazo e não tinha anistia: tudo o que ela dizia com aquele brilho voltava um dia, pontual, cobrando juros — e ele, que já devia ter aprendido a temer as frases arquivadas, abriu a porta naquela noite sem desconfiar de nada.

Ela o deixou entrar. Fechou a porta. E antes de qualquer beijo, antes de qualquer boa-noite, encostou o indicador nos lábios dele, devagar, selando — um lacre de pele.

— Uma regra hoje. Uma só. — A voz dela já estava no registro baixo, o de comando, o que dispensava apresentações. — Da porta pra dentro, você não faz nenhum som. Nem gemido, nem palavra, nem suspiro alto, nem palavrão engolido pela metade. Nada. Aconteça o que acontecer. E eu já aviso... — o dedo dela ainda nos lábios dele, o sorriso dela crescendo embaixo dos olhos sérios — ...vai acontecer bastante coisa.

Ele ergueu as sobrancelhas: e se eu falhar? — a pergunta inteira feita só de cara, o corpo já obedecendo ao regulamento antes de aderir a ele.

— Boa pergunta. — Ela aprovou o mímico com um beijo curto, um selo em documento. — Cada som que escapar, eu paro o que estiver fazendo e fico um minuto inteiro sem encostar em você. Cronometrado. E aqui é importante você entender uma coisa: eu não tô proibida de nada. Eu posso gemer, falar, provocar, gritar se eu quiser. O silêncio é só seu. — Ela deu um passo para trás e abriu os braços, anfitriã do próprio teatro: — A festa é toda minha.

✦ ✦ ✦

Começou fácil, como toda emboscada bem planejada começa.

Um beijo longo no sofá — silêncio tranquilo, administrável. As mãos dela abrindo a camisa dele — controlável, com técnica de respiração. Ele até se convenceu, por uns dez minutos de arrogância, de que a noite seria vencível. Fez planos. Traçou estratégia. Respirou pelo nariz.

Então ela encostou a boca na orelha dele e começou a falar.

Porque essa era a rasteira do jogo, e ele entendeu tarde demais, já caído: ela não ia arrancar som dele com toque. Ia arrancar com palavra. E o repertório dela naquela noite não constava de nenhum registro público — uma narração baixa, contínua, detalhada, do que ela ia fazer, do que estava fazendo, do que estava sentindo enquanto fazia, frases que em qualquer outra noite teriam direito a resposta, a gemido, a coro de torcida. Ele mordeu o lábio na terceira frase. Cravou os dedos no sofá na sexta. Na décima, o ar saiu dele com um princípio de som — quase nada, um esboço, uma vogal em rascunho—

Ela parou tudo na hora e olhou o relógio do celular.

— Um minuto — anunciou, alegre como um juiz corrupto que aposta no próprio tribunal.

E sentou-se no outro canto do sofá para cumprir a pena junto com ele — só que do jeito dela: se tocando por cima do vestido, devagar, sem pressa, gemendo ela o gemido que ele tinha engolido, devolvendo o som ao mundo pela boca errada, de olho nele o tempo inteiro.

Foi o minuto mais comprido da vida dele. E o mais educativo. Porque a punição, ele entendeu ali, não era a distância.

Era assistir à festa continuar sem ele.

✦ ✦ ✦

No quarto, o jogo subiu de divisão.

Ela o despiu por completo e passou a operar com precisão de quem conhecia cada tecla do instrumento — e tocava, de propósito, com dedilhado de concertista, exatamente as que produziam som. A boca dela desceu por ele sem nenhuma pressa e com toda a maldade disponível em estoque, parando no meio do trajeto para narrar avaliações técnicas em voz de laudo: "aqui... esse ponto aqui... eu conheço esse ponto, ele nunca fica quieto..." — e o ponto, traidor, confirmava a tese, e ele suportava agarrado ao travesseiro, o rosto virado para a parede, a respiração saindo em fio de barbante para não virar corda.

Perdeu mais dois minutos naquela fase.

Um por um gemido que vazou inteiro, escandaloso no silêncio do quarto como um prato caindo em restaurante vazio — e o minuto correspondente foi cumprido com ela deitada ao lado dele, cantarolando.

Outro por rir. Porque ela, no meio da operação, ergueu os olhos e fez uma careta de palhaço — covardia pura, golpe baixo sem previsão regulamentar —, e a risada dele explodiu antes que qualquer controle chegasse ao local.

— Esse doeu, né? — disse ela, cronometrando, sem um miligrama de remorso. — Rir é som, meu amor. Tá no regulamento. Parágrafo único: tudo é som.

✦ ✦ ✦

A fase final ela reservou para si.

Deitou-o de costas, subiu, encaixou — e aí soltou a própria voz inteira, sem mordaça nenhuma, gemendo alto o prazer dos dois, o dela por direito e o dele por confisco, dublando-o por procuração: "esse gemido é seu, eu tô guardando ele pra você, olha que lindo ele ficou na minha boca" — e ele embaixo, mudo, tremendo, as mãos autorizadas agarradas na cintura dela, fazendo o corpo gritar tudo o que a garganta não podia: o quadril respondendo, os dedos apertando, a coluna arqueando em frases completas.

Os olhos — os olhos berravam.

Ela cavalgou até a beira do colapso dos dois e segurou ali, suspensa, o fôlego picotado, olhando para baixo com uma admiração genuína de artista diante da obra: o homem mais silenciosamente barulhento do mundo.

— Você foi perfeito — disse, ofegante, os olhos brilhando. — Três minutos de multa a noite inteira. Eu esperava dez. — Inclinou-se, a boca na orelha dele, e revogou a lei com a voz desmanchando: — Regra suspensa. Grita pra mim.

O som que saiu dele não tinha nome, tradução nem classificação em catálogo: três horas de gemidos represados desabando de uma vez, o nome dela no meio, palavrões de gratidão, um alarido indecente que atravessou parede, laje e escrúpulo — enquanto os dois gozavam juntos e ela ria e gemia por cima, vitoriosa, colhendo em dez segundos tudo o que tinha plantado a noite inteira, a safra completa de uma agricultura paciente.

✦ ✦ ✦

Depois, no escuro, ele com a voz rouca de quem saiu de um show — do palco, não da plateia:

— Você percebe que os vizinhos ouviram exatamente um grito hoje. Um. Do nada. Às onze e meia.

— Percebo. — Ela riu no peito dele, deliciada com a própria obra. — Vão passar a semana inteira tentando montar a cena. Sem dados. Só o grito. — Bocejou, aconchegando-se. — Eu devia cobrar ingresso.

— Cobra dos vizinhos. Eu já pago em espécie.

— Verdade. — Ela ficou um instante em silêncio, e ele sentiu, contra o peito, a engrenagem girando — o ruído de pensamento que precedia todas as leis novas da casa. — Sabe o que eu percebi hoje? Você segurou o som aqui dentro, onde ninguém ia ligar. Bonito. Mas fácil. — A voz dela ganhou aquele brilho, o do arquivo abrindo gaveta nova: — Queria ver isso num lugar onde todo mundo é obrigado a ficar quieto. Um restaurante bonito, toalha comprida, gente educada em volta...

— Selene.

— Semana que vem eu faço a reserva. — Ela beijou o peito dele e se ajeitou para dormir, encerrando o expediente com a última cláusula do dia: — Aproveita e vai treinando a cara de paisagem. Você vai precisar dela na mesa.

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