
A capela era pequena, esquecida numa rua sem nome — dessas que só existem para quem precisa se esconder. A tinta da fachada tinha desistido há décadas; o portão de ferro guardava mais ferrugem que fé. Ninguém soube dizer, depois, quem deixou a porta aberta naquela tarde. Talvez tenha sido Deus. Talvez tenha sido o Diabo. Talvez, para o que aconteceu ali, os dois tenham feito questão de assistir.
Foi ideia dela entrar.
Eles voltavam a pé de um almoço comprido, daqueles em que o vinho conversa mais que o casal, e ela parou no meio da calçada como quem escuta um chamado que não veio de sino nenhum. A porta entreaberta. A fresta de escuro fresco no meio da tarde quente. Ele ainda tentou um "Selene, aqui não" — mas disse com a boca, não com os olhos, e ela já tinha aprendido, fazia tempo, a ler os dois separadamente. A boca dele dizia não. Os olhos dele diziam me convence.
E convencer, ela sabia, era só uma questão de andar na frente.
Ela empurrou a porta pesada com as duas mãos, o ombro apoiado na madeira, e a porta cedeu com um gemido comprido de dobradiça — o primeiro gemido da tarde, e não seria o último. Lá dentro, o mundo mudava de temperatura: pedra fria subindo pelas sandálias, cheiro de cera antiga e poeira benta, e um silêncio tão denso que não parecia ausência de som — parecia presença. Um silêncio que observava. No fundo, atrás do altar, o vitral fazia o sol trabalhar para eles: despedaçava a luz da tarde em azul, vinho e dourado, e espalhava os cacos coloridos pelo chão de pedra como um tapete de pecado estendido de propósito.
Ela caminhou pela nave central devagar. De propósito. Os saltos ecoando na pedra, um por um, como um relógio contando o tempo que faltava — e ele, parado na porta, contou junto sem querer. Doze passos. Ela parou no primeiro banco. Passou dois dedos no espaldar de madeira escura, avaliando, como quem prova a temperatura de uma banheira.
Virou-se.
— Sabe o que eu descobri? — A voz dela saiu baixinha, naquele volume que igreja exige e que ela usava como arma, porque tudo que a contivesse ela transformava em arma. — Que silêncio me dá ideias.
— Que tipo de ideia?
— Das que não se confessam.
Ele veio até ela pela nave, atravessando os cacos de luz colorida, e cada passo era um limite que ele sabia que não tinha volta — sabia e dava o passo assim mesmo, que é a única forma honesta de pecar. Ela deixou. Deixou-o chegar perto o bastante para o cheiro do perfume alcançá-lo — aquele, o do proibido, o que ela só usava quando a noite tinha plano — e então encostou dois dedos no peito dele.
Dois dedos. Tudo parou. Igrejas conhecem esse gesto: relíquias também se tocam assim.
— Aqui dentro — ela sussurrou — quem reza sou eu. Você é o altar.
O primeiro beijo foi o beijo antes de ser boca. Ela roçou os lábios no maxilar dele, na garganta, no canto da boca, respirando junto, roubando o ar dele sem encostar — uma procissão inteira ao redor da boca sem entrar nela — até ele gemer baixo, de pura espera, e o gemido ecoar na capela vazia como a primeira nota de uma missa que nenhum padre reconheceria. Só então ela beijou. Lento, molhado, profano, a língua dela dizendo o que a voz já não precisava dizer.
Ela o empurrou sentado no banco. A madeira estalou, escandalizada — o primeiro protesto da mobília, vencido no ato.
— Selene...
— Shhh. — Ela subiu no colo dele, um joelho de cada lado, o vestido subindo pelas coxas com a ajuda impaciente das mãos dele, a luz do vitral escorrendo azul pelo ombro dela. — Olha onde você está. Aqui não se fala. Aqui se ajoelha.
E ele entendeu.
Desceu do banco para o chão de pedra e ajoelhou entre as pernas dela como um devoto diante da única santa em que acreditava — os joelhos no frio, a fé inteira no quente. Ela sentou onde ele estivera, o banco ainda morno dele, e abriu as pernas devagar, sem pressa, deixando o vitral fazer o serviço de pintor: azul na parte de fora das coxas, vinho na de dentro, dourado onde a tarde quis ser generosa. Não usava nada por baixo do vestido.
Claro que não. Ela nunca era previsível.
— Reza — mandou.
A oração dele começou nos tornozelos. Subiu beijando a parte interna dos joelhos, das coxas, mordendo de leve na fronteira exata onde a luz azul terminava e a vermelha começava — rezando por cores, capela adentro dela. Quando a língua finalmente a tocou, quente, lenta, sem pressa nenhuma, exatamente como ele tinha prometido um dia por mensagem e ela tinha guardado a promessa com data e hora, ela agarrou o cabelo dele com uma mão e a beirada do banco com a outra. O primeiro gemido dela subiu pela nave até o teto abobadado, ficou lá em cima girando entre os anjos pintados, e desceu de volta como eco.
A capela inteira gemeu com ela. Acústica é a forma que as igrejas têm de participar.
Ele a lambeu como quem tem a eternidade no bolso e pretende gastar cada minuto dela ali. Circulou devagar, chupou mais devagar ainda, foi fundo e voltou, de novo, de novo, aprendendo de cor uma ladainha nova — e quando as coxas dela começaram a tremer contra as orelhas dele, quando ela já puxava o cabelo dele pedindo mais sem gastar palavra, ele parou.
Parou.
Ela abriu os olhos, furiosa e encantada — as duas coisas brigando no mesmo rosto, nenhuma ganhando.
— Agora não — disse ele, erguendo o rosto molhado dela, com o sorriso mais safado que ela já tinha visto num lugar sagrado. — Vira pra mim. Fica de joelhos no banco.
O coração dela disparou. Ela sabia o que vinha. Era a parte da história que ela mesma tinha inventado semanas antes, rindo, por mensagem, achando graça da própria ousadia — e que agora, com o corpo em fogo e a igreja em silêncio, não tinha mais nada de piada. As fantasias são assim: a gente as escreve de lápis, e um dia elas voltam a tinta.
Ajoelhou-se no assento de madeira, de costas para ele, as mãos agarradas no espaldar do banco da frente — curvada como quem reza, empinada como quem peca, e descobrindo, naquele exato segundo, que as duas posturas sempre foram a mesma. Ele ergueu o vestido dela até a cintura, devagar, um centímetro de revelação por vez, e a luz do vitral cobriu tudo o que apareceu.
— Meu Deus — murmurou ele.
— Ele não vai te ajudar agora — respondeu ela, olhando por cima do ombro.
Ele a abriu com os polegares e começou o beijo grego como quem inicia uma heresia: a língua percorrendo tudo, molhada, quente, circulando a entrada mais proibida com uma devoção que nenhum santo daquelas paredes mereceu em vida. Ela mordeu o próprio braço para não gritar. Não adiantou nada. O gemido escapou por entre os dentes, correu pelos bancos vazios banco a banco, e ela teve a certeza absurda de que as imagens nas paredes fecharam os olhos — não de vergonha.
De inveja.
A língua dele entrava e recuava, lambia e empurrava, paciente e criminosa, e ela rebolava contra a boca dele já sem nenhum pudor, encharcada, tremendo, pedindo baixinho não para, não para, não para — a única ladainha que aquele altar ia ouvir hoje, repetida com uma fé que faria inveja às beatas.
Quando ele se levantou e ela ouviu o cinto abrindo, o metal tilintou no silêncio como um sino pequeno anunciando o fim da missa — ou o começo da parte da missa que não consta no folheto. Ele se encostou nela, deslizou molhado pela entrada, e ela empinou mais, oferecendo e mandando ao mesmo tempo, porque nela as duas coisas nunca se contradisseram:
— Devagar. Eu conduzo. Eu digo quando.
E conduziu. Ele foi entrando onde a boca dele acabara de rezar, milímetro por milímetro, com um cuidado que era quase religioso — a liturgia da paciência, o rito de não machucar o que se adora —, e ela foi recebendo, respirando fundo, abrindo caminho, até senti-lo inteiro. E aí o mundo parou um segundo. A capela, o vitral, os anjos do teto, a poeira suspensa na luz colorida: tudo em suspenso, dois corpos imóveis unidos no lugar mais sagrado da cidade da forma mais profana possível — e nenhum raio caiu, o que os dois registraram como alvará.
— Agora — disse ela.
Ele começou a se mover e ela desistiu do silêncio de vez. Gemeu alto, gemeu o nome dele, gemeu palavras que fizeram a poeira dos santos tremer nas prateleiras e os castiçais reconsiderarem a própria vocação. Ele segurou a cintura dela, puxou o cabelo dela para trás no ângulo exato que ela gostava — o ângulo que expõe a garganta e rende o resto —, mordeu o ombro dela por cima do vestido, e obedeceu ao comando geral: devagar quando ela mandava, fundo quando ela deixava, forte quando ela implorava. A mão dele desceu por dentro da coxa, encontrou o clitóris dela, e ela desabou de vez — rebolando contra ele, tomada por todos os lados de uma vez, toda dele num banco de igreja sob a luz de um vitral centenário que nunca tinha iluminado nada tão bem.
— Eu vou... — ela avisou, a voz desfeita, aos pedaços.
— Goza — ordenou ele no ouvido dela, a voz grave rodando pela nave como um veredito. — Goza pra mim. Aqui. Deixa eles verem.
Ela gozou gritando, o corpo em espasmos longos, apertando-o dentro dela — e ele veio junto, fundo, gemendo o nome dela contra a nuca dela, os dois tremendo agarrados ao espaldar como dois náufragos no meio de um milagre invertido: em vez de salvos das águas, afogados de propósito, e gratos.
Depois, o silêncio voltou. Mas era outro silêncio — cúmplice, saciado, quente. O silêncio de quem viu tudo e não vai contar.
Ela desceu do banco com as pernas ainda em dúvida, ajeitou o vestido com dois puxões práticos, passou o dedo no canto do batom. Olhou para o altar lá no fundo com um sorriso torto, de igual para igual.
Ele ainda estava sentado, abotoando a calça com dedos desobedientes, o cabelo dela inteiro gravado nas mãos.
— A gente vai pro inferno — disse, ofegante.
— Que nada. — Ela pegou a bolsa do chão, pendurou no ombro. Os olhos dela subiram uma última vez para o vitral, demorando na luz azul e vinho, e alguma coisa ficou decidida ali, arquivada para uso futuro. — Bonita, essa palavra. Vitral. — Ela provou a palavra na boca como quem prova vinho. — Vou guardar. Uma palavra dessas ainda vai me servir pra alguma coisa.
— Servir pra quê?
— Você vai saber na hora. — Ela veio até ele, ajeitou o colarinho dele com uma ternura de dona, e o olhou de cima, exatamente como o tinha olhado do primeiro banco: inventário completo, aprovação total. — Sabe o que mais eu descobri hoje? Você reza bem. Mas ajoelha melhor. — Um beijo curto, promissor, no canto da boca dele. — Isso também vou guardar.
E caminhou para a porta pisando nos cacos de luz colorida, deixando atrás de si um homem em ruínas e uma capela em segredo. Parou na moldura da porta, contra o sol da tarde, silhueta de despedida:
— Deus perdoa tudo. E o Diabo... o Diabo ia adorar a manchete.
"Mulher comete ato profano com seu Deus grego em plena igreja — testemunhas afirmam que até os santos pediram bis."

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